Uma palavra chamada humildade

Diego Canhada - 05/10/2016

“Tu me prometes mundos e fundos, depois simplesmente começa a escrever. Ah, pare de escrever isso sobre mim, assim fica parecendo que eu sou uma mulher chata, eu só quero um carinho nos meus pés” – Ela diz isso e solta uma daquelas risadas super engraçadas…

Mal completamos sete meses em Madrid, no que é certamente a maior mudança de nossas vidas. E entre uma série de aprendizados, em um mergulho em uma cultura, uma história e uma forma de existência diferente de tudo que vivemos, talvez o maior ensinamento se chame humildade. Não enquanto conceito abstrato, mas enquanto prática cotidiana.

Mesmo que não ache que no Brasil pudéssemos nos gabar de grandes vitórias, possuir o domínio de uma língua, uma rede de amigos e contatos profissionais, um currículo reconhecido e uma família próxima te dando suporte já te colocam em outro patamar. No meu caso específico, ir de carro pro trabalho ouvindo música, contemplando a Mata Atlântica no caminho e encontrar as amigas na empresa quando chegava, é uma lembrança constante que me recorda o quanto eu era feliz no meu país.

Aqui nada disso existe, nada está pronto, todo dia é um recomeçar: aprender a escutar mais do que falar, agarrar-se a qualquer possibilidade de amizade, fazer cada euro render, pegar um metrô pela manhã no frio, inventar algum programa no domingo para superar as saudades dos almoços de família, esforçar-se para compreender uma série de regras formais e informais desconhecidas. Em suma, entender que você é um estrangeiro em profundo processo de reconstrução te obriga a apoiar-se no que talvez seja o maior valor que um ser humano pode possuir: a humildade.

O caminho ainda é longo, estamos longe do que se pode chamar de vitória. Entretanto, estamos resistindo, trabalhando muito, aprendendo todos os dias, aproveitando uma cidade que é pura magia, desenvolvendo habilidades que nunca foram necessárias antes. E estamos felizes apesar de qualquer dificuldade, certos da oportunidade de viver uma experiência única e bastante especial, agradecidos por termos encontrado – em nosso cotidiano e no meu trabalho – pessoas que tornam o caminhada mais leve e válida de ser percorrida.

Por fim, em um mundo que te força a ser melhor do que os outros e ser vencedor sempre, saber ser apenas mais um não deixa de ser uma alegria. Em um momento em que a arrogância é até mesmo admirada em certos meios, confesso que sinto uma grande satisfação no fato da Europa estar nos ensinando a sermos pessoas mais humildes. Nesse sentido, já possuo um enorme carinho e gratidão por esse país: obrigado Espanha!

“Quando vai chegar a hora da massagem? Tu és o príncipe da minha vida, tu faz de tudo para me agradar. Mas tudo bem, eu adoro quando tu escreves porque sei que tu faz isso quando estás feliz!”

Ok, termino por aqui, o apelo foi forte demais. Até o próximo “textão”, para os que tiverem paciência de ler tantas palavras jogadas ao vento e com a profundidade de um pires!