Um paraíso perdido chamado Galícia!

Diego Canhada - 02/07/2017
Por do Sol Galícia

A Galícia é uma região da Espanha que faz fronteira com o norte de Portugal e que possui status de Comunidade Autônoma. A região possui inclusive uma língua própria, o galego, que é uma mistura de português com castelhano. O português e o galego possuem a mesma origem e alguns linguistas afirmam que é o mesmo idioma, apenas há variações como ocorre naturalmente toda vez que uma língua sai do seu lugar de origem.

Embora eu pouco tivesse ouvido falar da Galícia antes de chegar aqui, logo que cheguei percebi que era uma região mítica para os espanhóis: volta e meia ouvia relatos de suas paisagens, do estilo de vida rústico e particular dos galegos, e especialmente de sua gastronomia. Se já havia uma curiosidade latente para explorar os diversos pontos de um país que me fascina cada vez mais, minha curiosidade foi aumentando com tudo que ouvia falar da região.

A oportunidade surgiu com o feriado estendido de 01 e 02 de maio, onde o Dia do Trabalho emendou com o dia em que se celebra, na Comunidade de Madrid, o levantamento que acabou culminando na independência espanhola frente à ocupação francesa liderada por Napoleão. Alugamos um carro e partimos para mais uma aventura pela Península Ibérica.

Galícia Costa da Morte

Galícia: nossa rota

Saímos de Madrid uma sexta-feira após o expediente – que felizmente costuma terminar às 15h na Espanha – e viajamos longos 600 km para chegar à capital da Galícia, a famosa Santiago de Compostela. Para muitos espanhóis, o norte da Espanha é a parte mais bonita do país: Astúrias, Cantábria, Galícia e País Basco. Quando se viaja ao norte é notável a drástica mudança na paisagem: deixamos para trás um clima muito seco, mediterrâneo e de paisagens amareladas, que são marcantes na maior parte da Espanha, para nos adentrarmos em paisagens verdejantes, montanhosas e com uma natureza exuberante.

Chegamos a Santiago de madrugada e só deu tempo de encontrar um hotel e desmaiar. No outro dia cedo fomos conhecer a cidade, cruzando com inúmeros peregrinos e conhecendo um centro histórico muito bonito. As cidades espanholas em geral são muito bem cuidadas e possuem um belo centro histórico ornamentado com imponentes e belas catedrais. Entretanto, confesso que eu já estava um pouco cansado de centros históricos, catedrais e castelos em função da overdose que tivemos desde que aqui chegamos.

Mesmo assim, participamos da missa dos peregrinos e logo tivemos nosso primeiro almoço na cidade, o que nos fez perceber que a gastronomia galega era realmente uma grata surpresa. Esse é outro tema recorrente no país: cada região possui uma ampla e rica culinária, o que faz da Espanha um mosaico gastronômico muito amplo, que gera admiração por toda Europa e que é motivo de muito orgulho para os espanhóis.

De Santiago partimos para La Coruña, no extremo norte da Comunidade, parando em uma simples pousada nos arredores da cidade. Com pouco tempo nesse que é o maior centro urbano da Galícia, deu para ver que é uma imponente, bonita e próspera cidade, que mescla tradição com modernidade, e que possui alguma semelhança com a bela cidade basca de San Sebastian. Mas a aventura realmente começou quando no outro dia cedo partimos para Finisterre, um pequeno povoado em que os romanos acreditavam que era o Fim da Terra, já que é um dos pontos mais ocidentais da Península Ibérica.

Pelo caminho, indo margeando o oceano em uma região conhecida como Costa da Morte, tivemos oportunidade de observar as paisagens mais bonitas que vimos em território espanhol: pura natureza, encostas enormes, praias selvagens e desertas com lindos tons de azul e verde. Fizemos uma rota muito bacana em que cruzamos povoados minúsculos, construções medievais no meio do nada e fizemos muitas paradas em locais estratégicos, muitas vezes percorrendo quilômetros sem ver uma alma viva no caminho.

A Galícia, com exceção de Santiago e de Finisterre, ainda é uma joia praticamente desconhecida pelo mundo, que praticamente só é visitada por turistas espanhóis e alguns aventureiros. Em Finisterre, estivemos em um povoado que parece um paraíso perdido, conhecemos o Cabo que dá o nome à cidade e que está em um local muito bonito, repleto de turistas e peregrinos do mundo todo. Do alto de uma montanha vimos o sol mergulhar no oceano, descansamos e comemos muito bem durante o resto do feriado.

zamburiñas gallegas

Galícia: a culinária

Alguns dizem que o encontro das correntes do Oceano Atlântico com as do Mar Cantábrico cria um microclima de águas geladas na Galícia que proporciona os melhores frutos do mar, polvos e pescados de toda Península Ibérica. Após uma intensa experimentação gastronômica, fomos obrigados a concordar: além de provar algumas preciosidades que já conhecíamos e presentes em todo o país – como o imbatível Pulpo à Gallega – nós provamos alguns frutos do mar que nunca havíamos visto na vida. E tudo delicioso, especialmente acompanhado de vinhos elaborados com uma uva típica daquela região que se chama Mencía, da qual se fazem vinhos espetaculares e dos quais pouco se conhece fora da Espanha. Aproveitamos e também fomos um dia visitar uma cidade próxima chamada Betanzos, onde dizem que está a melhor Tortilla de Patata da Espanha, uma paixão nacional que se encontra em todos os lados e é conhecida fora do país como Tortilla Espanhola.

Por fim, saímos no último dia rumo a Madrid e no caminho pudemos comer a tal carne bovina que também é famosa, já que dizem que os pastos verdejantes da região contribuem para que essa região possua algumas das melhores carnes do país. E que realmente fez jus a tudo que se diz. No fim das contas, foi uma das viagens mais especiais que fizemos por aqui, mas que nos obrigou a algumas semanas de intensa economia e regime no retorno. E fui obrigado a concordar com um amigo madrileño que me disse algo que tem todo o sentido: “O único problema da Galícia é que está muito longe de Madrid!”

Algumas fotos desta viagem: