Todo deserto possui seus Oásis

Diego Canhada - 19/07/2017

Passei todo o sábado preparando uma palestra que vou ministrar em breve e, como é de praxe, fui chegando ao fim com uma questão que me perseguiu durante todo o dia: “como concluir com algo que fuja do meramente técnico e que possa servir aos que vão dedicar uma parte do seu tempo para me ouvir?”

Então me lembrei de um trecho de uma entrevista que o filósofo francês Deleuze deu pouco tempo antes de morrer. Quando perguntado sobre o que ele achava da pobre literatura de seus dias, comparado a épocas muito mais frutíferas do pensamento, ele responde algo como: “na idade que eu tenho me tranquiliza saber que sempre haverá momentos em que cruzaremos desertos, mas sempre haverá oásis até que o deserto fique para trás”.

Pensei que essa talvez seja uma mensagem importante, especialmente pensando no momento que vive o Brasil e muitas outras partes do mundo. Em nosso país vivemos uma verdadeira crise, e não me importa aqui discutir origens e possíveis soluções, até porque não acho que tenha nenhuma contribuição útil ao assunto.

Vejo todos os dias brigas de foice de gente completamente certa de suas verdades querendo convencer outros, que acreditam possuir mais razão ainda, e essa turma toda discutindo política e economia com a mesma lógica, paixão e agressividade com que se torce para um time de futebol.

Estou quase certo que as discussões de facebook sobre política, com raras e louváveis exceções, tem mais relação com práticas de torcidas organizadas do que o conceito que tinham os gregos quando começaram a discutir o tema. Nesse sentido, por uma posição ética e mesmo para não entrar em searas que não me levarão a lugar nenhum, eu conscientemente me abstenho de participar dessa confusão.

O máximo que me permito fazer é, em silêncio, assistir à briga de camarote e ver a pancadaria, às vezes com tristeza, outras vezes com pena e muitas vezes dando risadas das gritarias, socos e voadoras vindas de um lado e de outro. Só acho que perder a amizade de alguém que pensa diferente me parece algo incrivelmente estúpido, o que reforça minha convicção em não entrar nesse circo.

Voltando ao tema principal da reflexão, acho que o pensamento de Deleuze é de uma sabedoria admirável se trazemos para nossa realidade coletiva e mesmo individual. Apesar do deserto que o Brasil atravessa, onde parece não haver saída até onde nossa vista alcança, sempre haverão oásis e a esperança será sempre a última a morrer.

Quando menos se espera, se vê um arbusto, logo se enxerga uma árvore e quanto menos se espera se está em uma verdejante floresta, só não se pode deixar de caminhar. O exemplo da Espanha me ensina muito nesse sentido: após uma crise que arrebentou o país e praticamente condenou uma geração de jovens a viver sem perspectiva, crise que ainda se reflete em taxas de desemprego próximas de 20% e que praticamente dobram em determinadas regiões do país, aos poucos o cenário começa a melhorar.

A dureza da crise fez o país encontrar alternativas onde antes parecia não haver solução. Hoje já é o país europeu que mais cresce e a situação é de visível melhoria, embora muitos espanhóis ainda não percebam: seu pessimismo característico não lhes permite, especialmente porque carregam ainda as cicatrizes do passado recente e porque sua principal referência comparativa são os vizinhos ricos do norte da Europa.

A situação do Brasil naturalmente é diferente, inclusive pelo processo histórico de cada país e pela posição que cada um ocupa na geopolítica global. Mas certamente haverá oásis e certamente esse deserto ficará para trás: um país de 200 milhões de habitantes e com uma riqueza inestimável não se resume a uma quadrilha que está todos os dias nos holofotes.

Sempre haverá desertos em nossas caminhadas, sejam como indivíduos, coletivos, nação ou cultura. Entretanto, só não se sai do deserto se paramos de caminhar: é preciso resistir, lutar e nunca deixar de seguir avançando.

Talvez o segredo esteja em tentar identificar o que está ao nosso alcance – e onde investir energia para transformar – e onde nossa atuação não faz diferença nenhuma. E, nesses casos, dar uma respirada funda, e seguir caminhando porque logo ali haverá um oásis, ainda que no momento não consigamos vê-lo.