Sobre umas inesperadas férias no Brasil

Diego Canhada - 06/09/2017
férias no brasil

Algum tempo depois de termos retornado das férias desse último verão no Brasil, recebo uma ligação do proprietário do instituto de pesquisa em que eu trabalhava em Florianópolis, com um convite irrecusável: “Nossa empresa está completando vinte anos, vamos fazer uma bela celebração e gostaria de convidá-lo a estar presente. Em caso de sua aceitação, arcaremos com os recursos para você vir ao Brasil festejar conosco”. Foi o grande acontecimento do semestre, tenho consciência de que poucas vezes na vida recebemos esse tipo de reconhecimento profissional e também demonstração de carinho.

Com a confirmação da minha ida, tive oportunidade de participar de dois eventos acadêmicos: ministrar uma palestra na Universidade Federal da Paraíba e outra na Universidade Federal do Paraná. Embora já tivesse me colocado à disposição para realizá-las desde que cheguei a Madrid, quando estive no país em fevereiro as universidades estavam em recesso. E, como forma de retribuir o convite da Market Analysis Brasil, me propus a ministrar um seminário contando um pouco da minha experiência profissional na Espanha, buscando trazer elementos que pudessem ser objeto de reflexão para a gestão da empresa.

Minha ida ao Brasil foi mantida em segredo, minha presença na festa seria uma surpresa para minhas ex-colegas de trabalho. Cheguei ao Brasil em um sábado e fiquei o final de semana curtindo a minha família em Floripa, mas na segunda-feira já parti para João Pessoa. Além da felicidade de rever um grande amigo, professor universitário e quem articulou minha ida para a UFPB, tivemos um dia todo de atividades acadêmicas: uma palestra para alunos de pós-graduação e outra para alunos de graduação. O tema da conversa se resumia a mostrar a importância da pesquisa social para o mundo dos negócios, e como a metodologia qualitativa era utilizada no contexto de projetos internacionais de pesquisa.

Eu fiquei impressionado não apenas com número de participantes do evento e de como o grupo de professores e alunos da universidade, a maior parte deles ligado ao curso de administração, se mobilizaram para essas atividades. Poucas vezes senti tanto interesse por parte das pessoas em um assunto aparentemente tão específico. E o carinho que recebi das pessoas na universidade foi algo impressionante. Após encerrar as atividades por lá e poder curtir uns momentos muito bacanas na cidade com esse meu grande amigo, voltei a Floripa.

Na Market Analysis eu apareci de surpresa na manhã do dia da festa, foi também um momento bastante emocionante pelo qual eu já esperava há meses. Fizemos um diálogo bacana pela manhã, com base no seminário que eu havia preparado, e à noite houve a grande festa. Novamente, sem palavras para descrever a oportunidade de poder estar com pessoas pelas quais eu tenho enorme carinho, em um momento tão marcante para a história da empresa e de todos que fazem parte dela.

Essa empresa não foi o lugar em que eu apenas trabalhei nos últimos anos em que estive no Brasil, é a organização em que cresci profissionalmente, onde aprendi a coordenar projetos internacionais de pesquisa e aplicar metodologias que antes eu só conhecia no plano teórico. Além disso, e não menos importante, foi a empresa na qual fui feliz desenvolvendo minha atividade laboral e onde estava o núcleo central das minhas amizades na cidade. E a festa estava absolutamente incrível.

No dia seguinte à festa partimos para Curitiba. Consegui curtir a presença dos familiares na minha cidade natal, receber a surpresa de ver meu irmão, que até então era a única pessoa da família nuclear que eu supostamente não veria. E, claro, foi bastante especial poder estar com todos por ali, ajudar a resolver algumas questões familiares que estavam pendentes, ver um ente querido que passa por problemas delicados de saúde e ainda almoçar com pai e irmãos no Dia dos Pais.

Na segunda-feira aconteceu a atividade na UFPR, na qual inclusive meus familiares foram prestigiar. É sempre uma alegria voltar a Universidade que é a grande responsável por minha formação acadêmica, rever meu antigo orientador de mestrado, vários colegas e uma grande amiga, a grande articuladora da minha presença ali e com um papel cada vez mais relevante dentro da Universidade.

Da mesma forma que na UFPB, recebemos um público bastante interessado e tivemos uma tarde de diálogo muito edificante, em que a troca de conhecimentos e o aprendizado coletivo são os objetivos desse tipo de encontro. E, por fim, nos dias que me restaram das minhas férias eu consegui ainda rever algumas das minhas mais importantes amizades e passar um tempo de qualidade com minha família.

Por que escrevo esse texto? Para agradecer coletivamente ao meu país, que materializado nessa série de pessoas e eventos que descrevi, fez da minha última ida ao Brasil um dos momentos mais especiais da minha vida. O que recebi nesses eventos não tem preço, serve como motivação para voltar à Espanha e, humildemente, buscar aprender um pouco mais. Como se não bastasse, surgiram mais convites para palestrar quando retornar ao país.

Eu sou obcecado pelo meu trabalho e pelo conhecimento de forma geral. Para uma palestra de uma hora, eu me preparo por muitos e muitos dias: porque reconheço que possuo muitas limitações, porque tenho profundo respeito pelos que dedicam parte de seu tempo para me ouvir e porque sei que é necessária muita dedicação para poucos minutos de inspiração. E, mais importante, porque nesses momentos eu tento gerar reflexões que sejam úteis à vida das pessoas, independentes de seus interesses e formação.

Algumas pessoas me perguntam por que não cobro por essas palestras e seminários em universidades. Sendo bem honesto, primeiramente porque acho que se eu passar a cobrar ninguém estará disposto a pagar: eu sou uma pessoa normal, não sou nenhuma estrela e nem tenho esses devaneios, meus pés estão na terra. Segundo porque é a maneira que eu encontro de, além de tirar disso algo intangível que é importante para mim, retribuir minimamente ao meu país tudo que ele sempre me deu.

Eu não conseguiria cobrar de uma universidade pública, especialmente na atual situação do Brasil. E a possibilidade de reunir um público formidável, diversificado e interessado para discutir o conhecimento é algo para mim absolutamente especial. No fim das contas, estou convencido que quem mais aprende nesses momentos sou eu: no processo de organizar a linguagem para realizar a exposição daquilo que penso e com as perguntas que me fazem refletir sobre o que eu antes não havia pensado. Nesse sentido, muito obrigado e até a próxima!

Algumas fotos desta viagem: