Sobre Red Hot Chili Peppers e Gestão de Projetos

Diego Canhada - 30/09/2016

Em 2002, quando cursava graduação em Administração na UFPR, em uma sexta-feira cheguei à faculdade após ter tomado algumas várias. Encontro minha turma no corredor e um dos meus colegas me diz: “Diego, viu que o Red Hot vai vir ao Brasil?” A notícia se misturou com a euforia do álcool, desci ao Centro Acadêmico, imprimi cartazes de uma “Excursão para o show do RHCP no Pacaembu”, saí colando nas paredes da faculdade e fui embora. Logo meu telefone começa a tocar e eu me dei de conta do que tinha feito: eu nunca tinha organizado absolutamente nada na minha vida.

Convidei um colega para dividir a responsabilidade e resolvemos embarcar nessa. Fiquei quase louco durante o processo, mas lotamos um ônibus e conseguimos assistir o show sem pagar um real no que deve ter sido a excursão mais barata que saiu de Curitiba. E o nosso público daria um show à parte: era uma verdadeira selvageria. Eu já tinha uma ideia do que seria, mas durante a viagem tudo se mostrou muito mais descontrolado do que eu poderia imaginar: uma mistura de amigos do bairro, colegas da faculdade e muita gente que eu nunca tinha visto na vida. Quase todos desregulados em algum nível, a maioria em vários níveis.

Resolvemos que eu ficaria “controlando” o fundo do ônibus, meu colega a parte da frente e pedi ao motorista me avisar quando tivesse algum posto policial. Em certo momento fui ao banheiro e, além do estado ser deplorável, havia um vazamento enorme. Fui pedir uma ajuda ao meu colega organizador, o cara estava praticamente desmaiado e só me disse: “Cara, não conte mais comigo, estou passando mal.”. No fim das contas todos foram e voltaram sem nenhum grave incidente. E, apesar de toda loucura, fiquei bastante conhecido na faculdade, me convidaram pra próxima chapa do Centro Acadêmico e começamos a realizar projetos e eventos muito maiores, que iam de excursão para conhecer o Santo Daime até congressos estudantis com milhares de alunos. Muita loucura, mas muita coisa séria também!

Nesse sentido, volto ao começo da reflexão: eu devo muito a essa banda. Do ponto de vista musical, mesmo que hoje sejam conhecidos como mais uma estrela do pop mundial, foram uma inovação misturando estilos que até então não conversavam ou pelo menos não com tanta competência: rock, funk clássico, punk, rap. Beberam na música negra americana como nenhuma banda de rock da época e criaram músicas que são hits universais e, ao mesmo tempo, verdadeiros hinos sobre a Califórnia. São conhecidos nos quatro cantos do planeta, lotam estádios e influenciaram bandas de todos os tipos.

Mais do que música, na banda há um estilo muito característico que se transformou em uma verdadeira marca e que, apesar de tudo, é muito difícil de descrever por tamanha versatilidade. E apesar de melodias tão diferentes uma das outras, você ouve uma única batida de baixo ou um solo de guitarra e mesmo antes de ouvir a voz de Anthony Kiedis você sabe: são eles! É muita energia em forma de música que só poderia ter sido criada por músicos muito habilidosos e com muito espírito. Enfim, a banda é uma verdadeira lenda viva pela qual eu tenho uma enorme gratidão e respeito: minha vida é muito melhor com suas músicas e aprendi um pouco sobre gestão de projetos quando organizei essa excursão.

E o show deles em Madrid? Foi o Red Hot Chili Peppers tocando ao vivo, não é preciso dizer mais nada! Só é preciso dizer que começaram a vender os ingressos, o sistema travou em função da alta procura e em poucas horas acabaram-se todos. E eles resolveram, para nossa sorte, fazer um segundo show na cidade e me proporcionaram o dia mais feliz desde que cheguei à Espanha. E isso me fez também perceber que apesar de qualquer perrengue, só por isso valeu a pena ter vindo e estamos no lugar certo na hora certa. No fim das contas, tudo acontece como deve acontecer.