Sobre o Ato de Escrever*

Diego Canhada - 25/05/2017

Anos atrás eu recebi um email de alguém que dizia ser um grande escritor. Essa pessoa prometia despertar o potencial criativo em quem investisse um bom dinheiro em um curso de uma tarde. Tudo faz parte da mesma lógica: transcenda em um dia, enriqueça em minutos, obtenha a felicidade plena agora. Na sociedade da gratificação imediata há muitos gurus que prometem não apenas mostrar caminhos, mas te levar no colo se você estiver disposto a pagar.

O melhor curso para aprender a escrever chama-se “leitura”: os que melhor escrevem geralmente são leitores apaixonados que investem muito tempo nisso. Outra questão que me parece importante – e vi em um filme chamado “Encontrando Forrester” – é escrever com emoção, para só depois deixar a razão entrar em cena.

Como diz o filósofo Deleuze, grandes escritores forçam a linguagem ao limite. Limites que separam o silêncio do som, a filosofia da ciência, a arte da política, a diferença da repetição. E se colocam nesses limites, trabalham a linguagem para que diferentes formas de conhecimento conversem em um mesmo plano. Em suas obras unem sentimento e razão, o objetivo e o subjetivo, forma e conteúdo, tragédia e comédia. Escrevem no que poderia ser chamado de “terra de ninguém”, já que não são passíveis de fáceis classificações ao misturar uma série de disciplinas e influências em um mesmo texto.

Grandes escritores são artistas que brincam com a linguagem e que vivem em uma espécie de malabarismo perpétuo, se equilibrando entre a ordem e o caos e, nesse equilíbrio tênue, são capazes de descobrir uma unidade nesses contrários. São pintores que desenham novos quadros e imagens em nossos pensamentos. E são também estrategistas, pois constroem um plano de escrita que marca os limites do que seria considerado um texto jornalístico, uma obra literária, um relatório de pesquisa ou um artigo científico, só para citar alguns exemplos.

As maiores obras da literatura são universais, fazem sentido em diferentes épocas e culturas. São obras abertas, possuem várias interpretações e convidam o leitor a construir os sentidos do texto. Muitos desses escritores foram gênios que morreram desconhecidos e desacreditados. Eram atravessados por uma Vida explosiva que os fazia enxergar o que é invisível para a maioria, pensaram o que antes era impensável e contribuíram para abrir alguns olhos em um mundo em que predomina a cegueira. Em suma, ler bons textos talvez seja mais edificante do que frequentar cursos de como “tornar-se um escritor”.

*Texto originalmente publicado pelo autor no jornal “Notícias do Dia“, em Florianópolis.