Roma: Um fim de semana em um museu a céu aberto

Diego Canhada - 20/11/2017

Em nossa rota pelas principais capitais da Europa, finalmente chegou o momento de conhecer a da Itália. Lembro-me que nas viagens pela América do Sul, uma vez um viajante de longa data havia me dito que a mais bela de todas capitais europeias era Roma, pois a cidade era um verdadeiro “museu a céu aberto”. Aquilo nunca me saiu da cabeça e se provou uma grande verdade.

Do que eu conheci, talvez a única das grandes cidades europeias que tenha uma beleza tão monumental quanto Roma seja Paris, mas sou obrigado a reconhecer que Roma tem uma vantagem que faz toda a diferença: é muito mais barata e acessível, com preços bastante similares aos que encontramos em Madrid. Isso faz com que, por exemplo, provar a autêntica comida francesa em Paris exija um orçamento muito mais elevado do que provar a autêntica comida italiana em Roma.

Estivemos apenas um final de semana na cidade e foi uma experiência fascinante, que também é mérito da rota muito bacana construída pela Martinica. Com um voo low cost comprado com antecedência pela Ryan Air, chegamos ao aeroporto de Ciampino na sexta-feira à tarde: o horário flexível do meu trabalho e o expediente de sexta que termina às 15h ajuda muito nesse sentido. Pegamos um ônibus e paramos na Estação Termini, no centro da cidade.

Dali pegamos um ônibus lotado até o bairro Trastevere: o famoso e boêmio bairro histórico onde ficava nosso Airbnb. No caminho para lá já deu para comprovar outra questão que volta e meia surge nos bate papos sobre viagens: para os padrões da Europa, a Itália é bastante caótica e o sistema de transporte público de Madrid é infinitamente superior ao da capital italiana.

Largamos nossas malas e fomos dar uma volta pelo bairro – que é como estar em um charmoso pueblo no meio da metrópole – para experimentar uma de suas atrações: os aperitivos que geralmente servem entre 19h e 21h em alguns bares da região. Escolhemos um famoso bar do bairro: por 6€ cada um ganhou uma taça de vinho com direito a comer livremente um variado buffet de comida mediterrânea. Muitas opções saborosas e saudáveis, realmente impressionante.

Após matar a fome, demos uma boa caminhada pela cidade até chegar ao monumento que eu mais queria ver, fruto de uma dica da minha irmã, que me disse há muito tempo atrás: “o Coliseu à noite é um dos monumentos mais bonitos que já vi na minha vida”. Nenhum exagero! E é impressionante como em uma simples caminhada você vai praticamente topando com belíssimos monumentos: chegamos a ver um pequeno bar, praticamente vazio, exatamente na frente de enormes ruínas romanas todas iluminadas. Em qualquer lugar do mundo aquele lugar seria disputado a tapas, em Roma é apenas mais um bar. Finalizamos com um gellato em uma sorveteria que parecia comum, mas que produzia o sorvete preferido do Papa João Paulo II. Não preciso dizer mais nada.

No sábado acordamos cedo, tomamos um café da manhã reforçado e foi o dia oficial do sightseeing. O mais bacana é que além das atrações principais, o caminho como um todo é beleza pura: uma série de prédios e monumentos lindos por toda parte, começando pela bela paisagem às margens do Rio Tíber. Começamos com a famosa Fontana di Trevi, que fez uma composição com a Martinica no que é uma das mais bonitas fotos que tirei dela. Passamos também pela Plaza de España, Altare della Patria, Panteón, Plaza Navona, Foro Romano e terminamos o dia novamente no Coliseu. No meio disso, um pouco de café italiano e uma fatia de pizza espetaculares, todos escolhidos a dedo antecipadamente.

Um breve descanso e saímos para jantar em um pequeno restaurante familiar em Trastevere, que antes mesmo de abrir já estava lotado. Como fomos uns dos primeiros a chegar, conseguimos rapidamente uma mesa e tive uma experiência gastronômica magnífica: a melhor burrata que já comi e uma lasanha também incrível, regados a um vinho da casa que era uma delícia. Na Itália eu tenho a impressão que qualquer pequeno restaurante onde você veja um gordinho de avental e meia dúzia de italianos gritando à sua volta irá te proporcionar uma das melhores refeições que você teve na vida.

E na ida para casa, um acontecimento dos mais curiosos. No meio da região entupida de restaurantes italianos, vejo um local pequeno que se dizia uma “temakeria brasiliana”. Quando entro para ver o que era aquilo, encontro dois baianos simpáticos ouvindo pagode em um local que era “especializado” em temakis, sushis, coxinhas, acarajés, ceviches e brigadeiros. Realmente nós somos a mistura mais louca do mundo, nós brasileiros deveríamos ser estudados e transformados em patrimônio da humanidade! Enfim, nesse caso a curiosidade não matou o gato e nos gerou várias risadas.

Domingo acordamos bem cedo e nos deslocamos até o Vaticano, utilizando um metrô de superfície e também um ônibus. As horas caminhando no meio da multidão e a longa espera em uma fria manhã compensaram: é literalmente uma série de museus muito diferentes entre si, todos no mesmo espaço. Como a Igreja Católica é uma das instituições mais poderosas da história, o acervo é extremamente variado e riquíssimo. Por acaso tivemos uma grande sorte, já que no último domingo do mês o Museu do Vaticano está aberto e ainda tem entrada gratuita: nos outros domingos não está aberto e em qualquer outro dia a entrada custa 20€ por pessoa!

Como ponto alto de todo o complexo de museus, eu destacaria as incríveis pinturas da Capela Sistina: uma das maiores criações do Renascentismo, fruto de artistas geniais e com o teto pintado por ninguém menos do que Michelangelo. Não deixa de ser impactante ver “A Criação de Adão”, a obra original da qual que invariavelmente já se viu um sem número de reproduções. Depois do Museu, apenas demos uma passada para fotografar a icônica Basílica de San Pedro, que estava lotada porque o Papa recém havia rezado o Ángelus, o evento que acontece todos os domingos às 12h.

Embora ainda houvesse uns dois monumentos que queríamos conhecer em Roma, deixamos de lado e fomos para nossa última experiência gastronômica em Trastevere, dessa vez escolhendo ao acaso, que nos rendeu uma pizza no forno à lenha sensacional, um delicioso fetucine ao molho ragu e mais um excelente vinho da casa. Após pegarmos as malas, partimos para a estação central de Termini: novamente um ônibus lotado e um cheiro hardcore de desodorante vencido no ar, mas deu tempo de fechar a estadia em Roma com mais um famoso gelatto.

Após a Martinica achar que ia morrer por engolir um pedaço de casquinha inteiro e sujar a cara toda de chocolate, pegamos o transfer para o aeroporto de Ciampino. Pelo menos no duty free deu para levar um par de vinhos e um limoncello, o famoso licor de limão italiano. O ruim de viajar em low costs é que não se pode comprar quase nada, o bom é que o dinheiro rende mais e não perdemos tempo com compras desnecessárias!

E pela segunda vez deixamos a Itália com gosto de quero mais e cada vez mais entendo porque esse é um dos únicos países que vejo os espanhóis terem uma profunda admiração. Em geral, quando comentam sobre os outros países, certamente há muitos locais interessantes de se visitar, mas quando se fala em viver há sempre muitos poréns: ou a comida é ruim, ou só se trabalha, ou a gente não é tão bacana, ou é frio demais, ou não tem praia, ou é perigoso, ou é atrasado e por aí vai. Sempre há algo que justifica o porquê a Espanha é um dos melhores países do mundo para se viver, senão o melhor.  Mas a Itália, bem…A Itália, como diz um amigo meu, “es el puto paraíso!

Agora nos resta agradecer a Ryan Air por ter cancelado um voo que tínhamos comprado e, além de nos deixarem escolher um horário ainda melhor, de quebra nos deram 80€ para cada um. Resultado: compramos outros bilhetes para a Itália, dessa vez para uma viagem on the road pelo sul. E as próximas aventuras por capitais europeias são Londres e Lisboa ainda em 2017, já apontando para outros destinos menos “tradicionais” em 2018!