O retorno do Brasil e a chegada à Espanha: um ano depois!*

Diego Canhada - 05/05/2017
Retorno à Espanha

Quando estava de férias no Brasil, após praticamente um ano sem estar perto da minha terra, fui atravessado por uma série de intensidades vindas de todos os lados e que me faziam refletir: onde está minha casa? onde é meu lar hoje? É a Curitiba onde cresci, me formei e passei a maior parte de minha vida? É a Floripa de todos os verões, onde me estabeleci profissionalmente e onde vivi nos meus últimos seis anos antes de vir? É Madrid onde vivemos há um ano? Ou será que não seria mesmo Porto Alegre, onde vive gente que hoje é minha família e onde já transitava como se estivesse em casa?

Apesar da crise econômica, das notícias e de tudo que se ouve de mal do Brasil – especialmente vindo da esfera política – felizmente encontramos a maior parte das pessoas em situação melhor do que quando saímos. E passamos momentos muito legais, com pessoas que temos na mais alta estima e que claramente se esforçaram – e tiveram êxito – para nos proporcionar momentos super especiais. E voltar à Espanha foi um processo marcado por emoções bastante complexas, como é a própria natureza desse negócio que chamamos de emoções.

E, naturalmente, voltamos ao nosso lar. Madrid é uma cidade apaixonante: não canso de me surpreender e cada dia gosto mais daqui, estou convencido que deve ser uma das melhores cidades para se viver no mundo. A Espanha, por sua vez, é um país que entrou no meu coração para não sair mais, com um estilo de vida e uma cultura que me absorveu e que me força a estudar em demasia: leio e leio sem parar para entender um pouco da complexidade maluca que é esse país. Por fim, viver na Europa é um caso à parte: um continente que é de uma riqueza cultural realmente impressionante.

De qualquer modo, a vida não é glamour, é um desafio e uma luta constante: acordar cedo quando o corpo quer seguir dormindo, trabalhar o dia todo, fazer o melhor que a gente pode, matar um leão por dia e assim dia após dia. E sem reclamações: pior é não ter trabalho ou não ter saúde que te permita trabalhar.

Entretanto, após um ano aqui e a empolgação inicial da chegada, seguida pelo duro choque da realidade de imigrantes em terras alheias e completamente desconhecidas, posso hoje dizer que a experiência está sendo mais do que válida e que hoje me sinto cada vez mais em casa nesse pedaço de mundo chamado Espanha.

Se há um ano atrás eu chegava encolhido em qualquer conversa sem nada saber, hoje pelo menos eu tenho gingado para fingir que sei alguma coisa. Se antes provavelmente se perguntavam “quem é esse cara do sotaque estranho?”, hoje já participo de igual para igual em um grupo do qual eu faço parte. Se antes eu não sabia se duraria mais um mês ou dois nessa aventura, hoje o que me comunicam – por palavras e ações concretas – é que esse projeto não possui uma data definida para término, que o futuro está em aberto e que oportunidades existem.

Esse país – e a empresa que fez um esforço para me trazer do Brasil – me proporcionaram algumas experiências realmente edificantes. Me trouxeram como analista de pesquisa sênior e me alavancaram em meses à posição de responsável pelos projetos internacionais da empresa. Se há um ano atrás eu mal conhecia o país, hoje presto consultoria para empresas globais que pretendem compreendê-lo melhor. Nas próximas semanas provavelmente coordenarei uma pesquisa que se realiza na Espanha, Estados Unidos, México e Colômbia, assim como viajo para Paris, Barcelona e um enclave espanhol na África para conduzir outra pesquisa. E sabe-se lá o que nos reserva o futuro.

Enfim, após idas e vindas de quem tem problema em ser conciso quando deve e detalhista quando é necessário, o resumo de tudo é praticamente uma atualização do que escrevi há praticamente um ano atrás quando estávamos vindo. Por um lado, que eu tenho plena e absoluta consciência de que o fato de ser brasileiro e toda vivência que tive em meu país me deram ferramentas essenciais para o que tem acontecido nesses lados. E, por outro, que sou obrigado a reconhecer que a Espanha, através dos seus habitantes com os quais eu convivo no dia a dia laboral, me trata de uma maneira que me surpreende positivamente quase que diariamente. No fim das contas, cheguei a uma conclusão um tanto óbvia: o futuro é incerto, “nossa casa” é onde a gente se sente em casa e ter alguém que amamos ao nosso lado é como carregar o nosso lar conosco!

*Texto escrito em março de 2017.