Partiu Rioja: dialogando sobre vinhos em uma viagem!

Diego Canhada - 15/05/2017
Rioja Eguren Ugarte

Rioja é a mais importante região produtora de vinhos da Espanha, país que tem a maior área de vinhedos do mundo e o terceiro maior produtor global da bebida. Em um país que possui mais de setenta regiões produtoras de vinho, a Rioja é a mais famosa delas e uma das duas únicas que possui o que se chama de denominação de origem qualificada.

Para um vinho receber o selo de Rioja, há uma série de critérios seguidos em sua elaboração: deve ser elaborado com somente alguns tipos de uvas permitidos na região e deve ser classificado como Cosecha, Crianza, Reserva e Gran Reserva, dependendo do tempo que descansa em barricas e na garrafa. Essa classificação é específica de Rioja, embora também seja utilizada por vinhos de outras regiões do país e internacionalmente é relacionada ao vinho espanhol em geral. Entretanto, é importante ressaltar que, por exemplo, um vinho tinto crianza de outra região não permaneceu necessariamente 12 meses em uma barrica, tempo que um crianza tinto de Rioja obrigatoriamente descansou para que seja classificado desse modo.

Embora na Espanha haja uma infinidade de tipos de uvas e vinhos bastante diferentes entre si, o que faz do país um verdadeiro paraíso para os amantes do vinho, fora daqui Rioja e sua uva carro-chefe, a Tempranillo, são praticamente sinônimos de vinho espanhol. Vale a pena lembrar que embora seja possível encontrar vinhos estrangeiros em bodegas especializadas, em mercados praticamente só se encontram vinhos espanhóis. E qualquer bar na Espanha terá, no mínimo, um Rioja, uma variedade da região e provavelmente algumas outras.

Uma das coisas que me disseram logo que cheguei aqui foi: “Se tu curte vinhos, o legal de estar na Espanha é que agora tu pode sair da dupla Rioja e Ribera del Duero, já que cada lugar da Espanha tem vários tipos de vinho. O bacana é poder ir experimentando, há muitos vinhos bons e que apenas não tem a mesma fama de um Rioja.”

É possível, por exemplo, beber uma boa taça de vinho por 2€ em um bar, às vezes acompanhado por uma tapa, sendo que em mercados se encontra vinhos bacanas por menos de 4€. Outro costume interessante é que aqui às vezes te dão uma garrafa de vinho da casa (às vezes surpreendentes) somente porque duas pessoas pediram uma taça de vinho para acompanhar o “menú del día”: refeição do  dia a dia e que consiste em entrada, prato principal, uma bebida e, como se não bastasse, ainda se escolhe um café ou sobremesa. E isso custa cerca de 10€ por pessoa em restaurantes caseiros. Em mercados, já vi vinhos que custavam no Brasil aproximadamente R$ 50 e aqui custam cerca de 5€: a diferença é brutal, o vinho aqui é realmente um produto bastante acessível.

Viajando por La Rioja

Logo que chegamos aqui, a “Martinica Fã de Bento Gonçalves” logo me disse que queria conhecer a região de Rioja: como não sei dizer não e a ideia me pareceu genial, embarcamos assim que surgiu a oportunidade. A Rioja é uma região mágica e bucólica, cheia de paisagens belíssimas e repleta de pequenos povoados que parecem perdidos no tempo. É uma verdadeira joia em um território que divide o País Basco do resto do país, foi seguramente uma das viagens mais marcantes e especiais que fizemos por esses lados.

Começamos nossa viagem por Logroño, capital da Comunidade Autônoma de La Rioja. O agito noturno se concentra na Calle Laurel: uma rua cheia de vida, onde se misturam a cultura das tapas espanholas e bascas. A cultura espanhola de estar na rua, a sofisticação basca na elaboração de tapas e tudo regado a uma imensidão de tipos de vinhos da região. E tudo com preços de interior de Espanha, o que deixa tudo mais acessível do que seria em Madrid ou mesmo no País Basco!

Logo partimos para Laguardia, importante cidade dentro da região de Rioja, mas que pertence a uma região no País Basco conhecida como Rioja Alavesa. Nas encostas da Cordilheira Cantábrica há bodegas por todos os lados e resolvemos conhecer duas: Ysios e Eguren Ugarte. Ysios recebe muitos visitantes, já que sua bodega foi concebida por um famoso arquiteto espanhol que se chama Santiago Calatrava. Só estivemos por fora, mas é impressionante ver uma paisagem formada por uma obra arquitetônica super moderna com as imponentes montanhas da cordilheira ao fundo.

E em Ugarte, que fabrica vinhos que eu já curtia muito desde que estava no Brasil, fizemos uma visita guiada seguida por uma degustação: uma aula sobre vinhos em uma bodega familiar que existe desde 1870. Para mim, estar lá foi como realizar um sonho e passei a gostar ainda mais dos seus vinhos, especialmente após ter sido bastante intenso na minha degustação!

Voltando à “Rioja Espanhola”, rodamos por paisagens e povoados que parecem sair de um filme e visitamos um dos mais importantes museus de vinho no mundo, que fica dentro de uma bodega: Museu Vivanco de la Cultura del Vino. Outra aula sobre vinho e, como não poderia deixar de ser, mais uma degustação.

Tivemos também oportunidade de dormir em um albergue para peregrinos, já que parte dessa região faz parte do Caminho de Santiago: por 20€ negociados na hora tivemos um aconchegante quarto só para nós em uma região que era pura paz, em um povoado chamado Grañon. À noite fomos dar uma circulada de carro pela cidade e não vimos nenhuma alma viva: era uma cidade medieval que parecia uma cidade fantasma, baita experiência!

Conhecemos também outra pequena cidade chamada San Milán de la Cogolla para conhecer o Monastério de Yuso. Nesse local estão os primeiros manuscritos de duas línguas completamente diferentes: a língua castelhana (que todos nós chamamos de espanhol fora do país) e a língua euskera, o idioma oficial dos bascos. O mesmo monge, anônimo, é considerado o responsável por ter sido a primeira pessoa a escrever as primeiras frases que se tem registro nas duas línguas. Simplesmente assombroso!

Já no retorno a Madrid, passamos por Haro, conhecida por ser a capital dos vinhos de Rioja. Lá mais uma infinidade de bodegas e tivemos oportunidade de fazer outra degustação em uma que se chama Gómez Cruzado, que possui vinhos riojanos tradicionais e também outros em que se aplicam as mais modernas técnicas de produção de vinho. Resultado: provamos um dos melhores vinhos de todo passeio, que tem um nome que faz jus ao seu conteúdo, o Honorable.

Enfim, se você ama vinhos, curte aprender sobre o tema e gosta de conhecer bodegas, provavelmente a Rioja é um dos melhores locais do mundo para esse tipo de turismo. E a região é mais do que isso, é uma terra de puro encanto que lhe deixará embriagado mesmo antes de abrir a primeira garrafa.

Algumas fotos desta viagem: