O Imigrante José*

Diego Canhada - 12/11/2016
Imigrante José

Parecia ser um dia qualquer, mas foi o dia em que José decidiu: “eu vou pra Europa!” Aspirando uma condição de vida melhor e uma experiência diferente, juntou as poucas economias que possuía e resolveu partir. Surgiu o primeiro problema: só lhe aceitariam no local como turista ou estudante, sendo que seu interesse era viver e trabalhar. Comprou uma passagem de retorno para passar por turista, o que liquidou parte do dinheiro que tinha.

Chegando ao seu destino, tudo era mais caro do que imaginava e, após uma semana em um albergue, conseguiu arrumar um quarto na periferia da cidade. Lá percebeu que a Europa não era toda tão linda como ele ingenuamente pensava. Entretanto, tinha um quarto para viver, o transporte público funcionava bem, ele sentia-se seguro e começou a buscar trabalho.

Como praticamente não falava a língua do seu novo país, qualquer atividade era um desafio. Nas suas buscas para fazer qualquer tipo de trabalho, a resposta padrão era: “você não tem visto, não posso te contratar.” E, claro, a falta de conhecimento da língua dificultava tudo ainda mais. Sua sorte foi encontrar conterrâneos que haviam passado por dificuldades similares e lhe ajudaram muito.

José era um sujeito quieto e tímido, mas muito correto e logo se percebia que era uma boa alma. Alguns amigos no bairro se solidarizaram e, através de uma indicação, conseguiu um trabalho em um pequeno restaurante. Sua função: “ajudante geral”, ou seja, José fazia de tudo um pouco: limpeza, compras, pequenos consertos, auxiliava na cozinha e até de garçom trabalhava quando o movimento era grande.

Aos poucos, começou a se adaptar. Estudava um pouco da língua após o trabalho com umas apostilas velhas que lhe deram. O salário informal que recebia lhe permitia pagar seu quarto, comer, se movimentar pela cidade e arcar com os pequenos gastos de sua vida simples. José não bebia e isso lhe ajudava a ter a pequena sobra que muitos dos outros do seu bairro não possuíam. Guardava isso com orgulho e pensava: “isso vai valer bastante quando eu voltar pra minha casa!”.

José trabalha muito, mas isso não era diferente antes. Nunca teve condições que lhe permitissem estudar e se qualificar um pouco mais, já que trabalhou muito para ajudar sua família. O que mais lhe deixa triste é quando lhe tratam mal, mas sabe que isso não acontece só com ele e pensa: “poderia ser pior, eu tenho trabalho e tenho saúde, não tenho do que reclamar.” E assim José segue sua vida: já está melhor no idioma, sua seriedade no trabalho o fez ganhar respeito do dono do restaurante e dos seus colegas. Sente falta da sua família, dos poucos amigos que possuía, mas se sente um vitorioso. Considera-se feliz e possui seus sonhos: dominar a língua, ter um local melhor para morar, conseguir um trabalho de escritório e conseguir estar de forma legal no país. E vive, um dia após o outro, agradecendo pelo que conquistou e fazendo sua parte para conquistar um pouco mais. Geralmente se vê o José no metrô com um sorriso no rosto e pensando: “apesar de tudo, é bom estar aqui!”

*Texto publicado no jornal “Brazilian News – Notícias em Português” em junho/2016, Londres.