Uma cidade é o que se vive nela: sobre Madrid e seus encantos

Diego Canhada - 16/10/2016
cidade madrid faro de moncloa

Sempre fui fascinado por cidades e pelas descobertas que se podem fazer nelas. Cada cidade possui suas belezas, seus mistérios e encantos. Em todas as cidades por qual passei, tentei retirar delas o melhor que poderia. Um importante aprendizado que obtive viajando foi o de buscar “manter um olhar de turista” na cidade em que se vive.

Lembro-me de um momento em 2009 em que estávamos em um grupo de mochileiros no Peru, em uma pequena cidade perto de Machupicchu chamada de “Águas Calientes” e, por coincidência, uma madrileña que estava em nosso grupo disse: “vou tentar ser diferente quando voltar à minha cidade, buscar ser mais atenta na cidade em que vivo, tentar fazer amizades como se faz em uma viagem, não estar sempre correndo sem prestar atenção ao meu redor.” Outro grande amigo, uma vez me disse quando estávamos voltando de uma viagem: “deveríamos viver como se estivéssemos viajando e pensar que a cidade onde se reside é apenas uma na qual ficamos mais tempo.”

Sem dúvidas, o que uma cidade te oferece condiciona a experiência que se tem nela. Impossível ter todos finais de semana na praia em uma cidade sem praia, assim como é difícil explorar uma cidade perigosa à noite, do mesmo modo que é difícil frequentar museus com frequência se isso não está disponível. Entretanto, condicionar não significa determinar. Uma cidade é para nós o conjunto de experiências que vivemos nela: as paisagens que vemos, os cheiros que sentimos, os trajetos que fazemos, os lugares que visitamos, as pessoas que conhecemos e convivemos.

Há pessoas que buscam retirar o melhor que podem de uma cidade e outras simplesmente passam por ela sem lhe dar atenção e, por consequência, não recebem dela o que poderiam. Viajar é muito bom, um dos melhores investimentos que se pode fazer. Entretanto, buscar ser feliz onde se vive é ainda mais importante. Criar uma relação de afeto com a cidade onde se vive é parte disso: buscar explorar seus cantos, bairros, estar atento a uma rua, a um edifício, conversar com seus moradores, aprender a gostar daquilo que se vê.

Em Floripa passei os últimos anos tentando aproveitar a cidade ao máximo a partir do melhor que ela me oferecia: praias, trilhas, companhia de pessoas queridas, o pôr de sol e suas inúmeras belezas. Adorava quando recebia visitas e poderia ser uma espécie de guia para mostrar trajetos e locais desconhecidos, mostrar a “minha Floripa” a um visitante.

E em Madrid a postura é a mesma, apesar das diferenças entre as cidades. Nunca sabemos quanto tempo ficaremos e tudo que se pode ver e experimentar é infinitamente mais amplo do que o roteiro turístico básico. A capital espanhola possui uma riqueza cultural impactante e paisagens urbanas que chocam positivamente todos os dias. Como ouvi dias atrás e me fez todo sentido: “Madrid não é uma cidade que se mostra à primeira vista como outras cidades europeias, ela é cheia de segredos e vai se mostrando aos poucos”.

Acho o máximo ouvir algo sobre um local, ler o que posso sobre o tema e tentar conhecer no tempo livre. Sair caminhar sem rumo, observar as pessoas, estar atento e poder mostrar um pouco através desses relatos e fotos. E, como diz o escritor Ítalo Calvino em um grande livro: “Ao chegar a uma nova cidade, o viajante reencontra um passado que não lembrava existir: a surpresa daquilo que você deixou de ser ou deixou de possuir revela-se nos lugares estranhos, não nos conhecidos.”

Nesse sentido, por exemplo, me vejo às vezes em um bar boêmio de Madrid relembrando de momentos em Bogotá, na Cidade Baixa de Porto Alegre, no Largo da Ordem em Curitiba. E esse passado ajuda a reconstruir e moldar uma nova experiência no presente: pelas comparações inevitáveis, pelas recordações, por contar uma história vivida nesses locais.

Para os que chegaram até aqui, fica a provocação à reflexão: “o que mais gostam em suas cidades?”, “como estão aproveitando a mesma?”, “o que a diferencia das demais?”, “qual a cidade que mais gostaram de conhecer?”. Seria interessante que esse monólogo se transformasse em um diálogo! Bom domingo a todos!