Consumo colaborativo na Espanha*

Diego Canhada - 06/12/2016
Consumo colaborativo

Nos meus últimos anos em Floripa, trabalhei na Market Analysis Brasil, um dos mais importantes centros de conhecimento sobre sustentabilidade e consumo no Brasil. Um dos fenômenos que eles estão buscando compreender atualmente é consumo colaborativo. Em recente pesquisa, mostraram que um em cada cinco brasileiros já ouviu falar ou leu alguma coisa a respeito do consumo colaborativo ou compartilhado.

Interessante notar que foi esse tema um dos que mais me chamou atenção desde que vim morar em Madrid. Um conjunto de fatores faz com que formas de consumo alternativas, sustentáveis, verdes e/ou colaborativas – independente de sua denominação – sejam muito frequentes aqui na Espanha.

Tenho impressão que no Brasil é necessário esforço individual para que essas práticas de consumo não sejam apenas eventuais. Em Madrid, por outro lado, é quase impossível você não se utilizar desses serviços. Isso vai desde o uso intensivo de transporte público por todas as classes sociais até aluguéis de bicicletas e carros elétricos espalhados pela cidade. Há pessoas alugando quartos de suas casas através de plataformas online, há oferta de caronas para todos os cantos do país, há outros que oferecem refeições em sua própria moradia, há lojas e aplicativos para comércio de roupas e objetos usados que possuem enorme popularidade.

Percebi nessas iniciativas que, mais do que uma intenção sustentável, há uma estrutura social que sustenta essas práticas e que muitas delas se baseiam na confiança entre as pessoas. Quando alguém abre sua casa para receber um desconhecido, não imagina que será roubado. Quando uma mulher pega uma carona, não receia que possa ser estuprada. Quando você se utiliza do metrô para sair à noite, sabe que chegará à sua casa. Quando alguém disponibiliza um carro para alugar sem burocracia, não imagina que o usuário intencionalmente vá danificar o automóvel.

A articulação entre uma estrutura social menos desigual, serviços públicos de qualidade, altos níveis educacionais, desenvolvimento tecnológico e a crise econômica faz com que se proliferem práticas de consumo colaborativo na Espanha. Essa mesma estrutura social permite que a posse de bens não possua o mesmo valor simbólico e distintivo que possui em países com níveis de desigualdade como no caso do Brasil. São aspectos a levar em conta para potencializar essas práticas que – apesar de não aumentar o PIB de um país – ajudam a otimizar os recursos existentes e contribuir de forma significativa para o planeta.

*Texto publicado originalmente no jornal “Notícias do Dia” em Florianópolis no dia 21/06/2016.