#31 – 04/06/09 – San Pedro do Atacama – Deserto do Atacama – Chile – 18h – Quinta-feira

Diego Canhada - 07/12/2017

Ontem à noite fiquei um bom tempo na internet do Hostel conversando e Juan ficou jogando cartas com uma alemã e dois israelenses que conhecemos. À noite tive certa dificuldade para dormir: meu relógio parou quando estávamos chegando em Córdoba e não confio muito no meu despertador. Com medo de perder o ônibus, como quase aconteceu em Montevidéo, não consegui relaxar muito.

Acordamos às 7h, tomamos banho, café da manhã no Hostel, mochila nas costas e rumo à rodoviária. Lá uma surpresa negativa: os números dos nossos assentos já estavam ocupados por outros passageiros. Erro de comunicação do ponto de venda com a companhia de ônibus. Por sorte, havia dois lugares vagos e conseguimos embarcar às 9h com destino a San Pedro do Atacama. Chegamos aqui às 16h, cerca de 500km de viagem.

No começo da viagem, fiquei lendo umas poesias do Mario Benedetti, ouvindo música e vendo a beleza da estrada. Logo a paisagem começou a mudar: um vale com muitas montanhas, cactos e muitas montanhas coloridas! Estava bem empolgado com o que estava vendo e comecei a me encher de sensações prazerosas: poesias do José Servo, um visual maravilhoso e boa música nos ouvidos.

Quando me dei conta, estávamos atravessando um deserto de sal e sempre subindo muito. E assim foi a viagem, o trecho mais lindo que já cruzei até hoje: atravessamos a Cordilheira dos Andes há mais de 4000m de altitude, desertos, montanhas coloridas, montanhas de gelo, vulcão, deserto de sal, cactos. Uma paisagem inóspita e belíssima, quase inacreditável, como se estivéssemos em outro planeta. Na minha vida, só dois trechos poderiam rivalizar, mas mesmo assim eu ficaria com esse que descrevo.

O primeiro deles é o trecho Villazon – Uyuni, que fizemos em 2006 na Bolívia em um trem, quase todo pelo deserto: cerca de 16 horas. Mas uma viagem muito dura, especialmente porque tínhamos menos passagens do que pessoas e íamos revezando: uns sentados, outros de pé. A segunda viagem, também pela Bolívia e que pretendemos fazer agora: La Paz à Copacabana, uma pequena cidade às margens do Lago Titicaca, o lago navegável mais alto do mundo. Linda porque entramos em território Inca e vemos suas belas marcas nas montanhas, inconfundível depois que se vê pela primeira vez. Mas a de hoje surpreendeu todas minhas expectativas!

Quando o ônibus começou a subir muito, a maioria dos passageiros, em um ônibus lotado de europeus, começou a passar mal com os efeitos da altitude. Nunca tinha visto algo igual: uma movimentação enorme de saídas e entradas do banheiro. E nós lá átrás, chegou uma hora que o cheiro ficou horrível. Tinha um rapaz que ia de vinte em vinte minutos, Juan me disse que não desejava aquilo para o pior inimigo. E para descontrair, começamos a fazer brincadeira, todo mundo no fundo com o nariz tapado, risadeira geral. Uma hora deu uma acalmada no estômago do povo.

Em 2006 eu sofri muito com a altitude e, exatamente como dessa vez, nada no início. O mal estar me veio depois de dias já na altitude e após ter subido alturas incríveis, como nas minas de Potosi. Um dia exagerei na noite e veio tudo de uma vez só. Passei uma noite terrível em Copacabana, um dia me sentindo doente na Ilha do Sol e alguns dias mal do estômago. Tem gente que quase não sente nada, há outros que acham que vão morrer e ficam dias passando mal: tonturas, mal estar, fadiga extrema, dor de cabeça, desarranjo intestinal, diarreia, vômitos. Algumas vezes a altura mexe com o organismo de um modo muito extremo.

Eu estava super bem, mas depois que passamos pela fronteira da Argentina, comecei a sentir o estômago incomodando e logo passou. Quando estávamos a quase uma hora do Chile, bateu o enjoo forte e para não vomitar, tomei meio Dramim do Juan. E mordi minha língua mais uma vez nessa viagem. Mas enfim, logo fiquei bem e até agora estou.

Chegamos em San Pedro do Atacama, um oásis no meio do deserto há cerca de 2.400m de altitude. Muito movimentado por turistas, uma boa estrutura de hospedagens, alimentação e bares. Tudo muito caro, tudo muito diferente. No meio do nada há essa pequena cidade, o ponto chave para quem quer desvendar o Deserto do Atacama e suas belezas, que são bastantes, mas também bem caras. Vamos ficar aqui até domingo, já nos instalamos, fizemos as compras no mercado e já temos passagem de volta para Jujuy.