#30 – 03/06/09 – San Salvador de Jujuy – Argentina – 19h – Quarta-feira

Diego Canhada - 04/12/2017

Ontem quando estávamos arrumando as malas para sair do Hostel, uma decepção. O Paulo, a pessoa que cuidava do local e que até o momento estava sendo super gente boa, veio conversar conosco quando estávamos saindo, dizendo que precisava nos cobrar mais meia diária porque ficamos muito além do horário de check out. No entanto, argumentei que isso já estava previamente combinado, desde meu e-mail para o dono do Hostel e mesmo quando entramos. E Paulo começou a querer nos “enrolar” com umas histórias meio sem sentido, querendo até dizer que estava nos ajudando, porque iria nos dar um cartão de desconto em uma rede de Hostéis e tudo mais. Só que não queríamos cartão nenhum, só queríamos fazer tudo do modo correto e cada centavo aqui é importante!

E começou aquela história de que o dono que passou lá e falou que era para cobrar, que ele que seria prejudicado. Nas várias contradições que surgiram de seus argumentos, Juan já o questionou, especialmente porque passamos um bom tempo no Hostel e não vimos ninguém lá fiscalizando nada. Chegou naquele ponto em que não adiantava mais conversar, olhei bem fundo nos seus olhos e disse calmamente: “Não vamos pagar, isso não está certo, me coloca em contato com o dono que converso com ele agora!” Daí a história já mudou e ficou como sendo opcional nosso pagamento.

Quando terminávamos de arrumar nossas malas após a discussão, Juan me disse que enquanto eu escrevia quando chegamos no Hostel, tinha visto ele conversando com as prostitutas e pegando cocaína sem pagamento antecipado, dizendo que iria arrumar o dinheiro. Terminamos de arrumar tudo com rapidez e nos mandamos.

Às 21h15 pegamos o ônbus para San Salvador de Jujuy. Eu estava em um ótimo estado de espírito: saindo daquele lugar, descansado, com roupas limpas e começando uma nova viagem. E os ônibus na Argentina são muito confortáveis, em geral o mais simples é melhor do que os semi-leitos no Brasil. Ainda se ganha um lanche, as estradas que andei por aqui estão em ótimo estado e o transporte é muito mais barato que no Brasil! Já nos andes bolivianos é outra história: muito mais barato, mas uma espécie de rally no “aperto e desconforto total” em cada viagem, com raras exceções…

Fiquei um tempo olhando a majestosa lua na minha janela e pensei que antes eu pouco dava valor para isso. Li mais do Hesse e acompanhei o Servo enviando sua magnífica carta pedindo o desligamento de Castália e deixando o cargo de Magister Ludi, posto máximo da Hierarquia. Vi também a resposta negativa da Diretoria, também muito bem elaborada, mas sem o brilho de Servo. E dormi muito, sem nenhum remédio para dormir! O Juan tomou mais um, vamos ver quantos até o fim da viagem ele engole.

Acordei com a paisagem totalmente diferente, já estávamos no norte da Argentina. Lugares meio desérticos, grandes montanhas ao fundo, uma bela paisagem! E com o sol, mais Hesse e terminei a biografia de Servo. Chegamos aqui em Jujuy às 9h45, cidade que fica há 870 km de Córdoba. Já estamos há mais de 1500 km de Buenos Aires. E aqui estou praticamente na mesma latitude de Curitiba. Desci bastante no começo e agora subi, praticamente fiz um V, sendo que Curitiba é o extremo direito do V e Jujuy é o extremo esquerdo. E daqui para frente, é subir muito até chegar ao extremo sul do continente sul americano.

Aqui já é bem diferente. Jujuy tem cerca de 230.000 habitantes e é capital da província de mesmo nome. Está há 1259km de altitude, em um vale que era antigo percurso do Império Inca. Aqui já se percebem alguns dos seus vestígios, mas poucos ainda. Mas a influência indígena é marcante: tanto nas roupas, nos costumes e na fisionomia das pessoas. Aqui já estamos muito próximos da Bolívia, um país verdadeiramente indígena, e já se percebe a enorme diferença que possui Jujuy da capital da Argentina e das outras cidades no centro do país que cruzamos.

Compramos nossa passagem para San Pedro do Atacama no Chile e amanhã entramos em outro país com um objetivo claro: conhecer o Deserto do Atacama. Sairemos amanhã cedinho, pela tarde já devemos estar por lá em uma estrada que dizem ser linda. Iremos cruzar a cordilheira e chegar há mais de 4.000km de altitude. Mas lá pretendemos ser rápidos e logo voltarmos: o Chile é muito caro, nosso rumo é Bolívia e continuar a subida!

Perguntamos dos Hostéis mais baratos, caminhamos e logo nos alojamos. Enquanto o Juan fazia seu check in, entrei na internet e fui responder alguns emails. Conversando com o cara que cuida do Hostel, Juan Guilherme estava espantado porque pela primeira vez um argentino estava dizendo que o Pelé era o melhor jogador do mundo. Mas como isso seria uma heresia, vem a resposta completa: “Maradona é de outro mundo”!

Tirei um cochilo, bastante cansaço pela longa viagem. Acordei e minha programação era dar uma volta pela cidade, conhecer algum museu que meu guia diz ser interessante e ficar tranquilo para a viagem de amanhã. Mas me vem o Juan e como quem não quer nada: “parece que tem um lugar com águas termais aqui perto, bem barato e é só pegar um ônibus. Se você quiser ir, eu sou parceiro.” Claro que fomos!

E foi muito bacana, era tudo que estávamos precisando. Pegamos um ônibus, um caminho lindo no meio de um vale: montanhas ao fundo e um riacho correndo ao lado da estrada. E uma piscina de águas termais quando chegamos! Para ficar melhor ainda, encontramos a Salta Negra, uma cerveja preta fabricada na cidade de Salta, bela cidade que conheci em 2006 e que fica aqui pertinho. Tomamos uma garrafa e ficamos a tarde toda na piscina. Acabamos de voltar, o brother parou em algum lugar para comer e estou aqui com mil reflexões sobre essa viagem e o processo de escrever esse diário.