#30 – 02/06/09 – Córdoba – Argentina – 16h48 – Terça-feira

Diego Canhada - 24/10/2017

Ontem enquanto escrevia, o Paulo que cuida do Hostel aqui e duas meninas conversavam com Juan e mesmo comigo aqui no microcomputador. Depois que elas foram, Paulo me disse que eram prostitutas que abrigava ali de vez em quando. Ele viajou por todo continente muitas vezes, já morou em muitos países daqui e disse que essa é uma realidade de toda América do Sul: jovens prostitutas, com filhos e trabalhando para sustentar a si e sua prole. Ele me disse que estava feliz porque viu uma das meninas com umas pequenas luvas de lã que ela tinha comprado para seus filhos. Para ele, que trabalhou como assistente social, isso é um sinal de sanidade: preocupar-se com seus filhos!

Em 2007 fui para Recife apresentar um artigo que escrevi com meu orientador na graduação e no mestrado. Visitei essa linda cidade e estava em um lugar muito agradável: Praia de Boa Viagem, a praia dos tubarões! E fiquei impressionado com a idade das meninas se oferecendo para fazer programas, praticamente implorando por alguns reais. Descobri depois com um rapaz que trabalhava na pousada onde eu estava, que eram todas viciadas em crack. Esta droga está destruindo boa parte da juventude brasileira e não escolhe classe social. Entretanto, como sempre, os mais atingidos são sempre os mais pobres.

Após eu sair do computador, Juan logo foi dormir e eu resolvi sair sozinho. Fui para alguns lugares, especialmente em Nueva Córdoba, bairro universitário e cheio de bares e pubs. A noite estava muito fraca, era segunda-feira. Logo voltei para o Hostel e dormi. Almoçamos um gostoso macarrão que o Juan preparou enquanto eu dormia e fomos dar uma volta pela cidade.

Impressionante como Córdoba se parece com Curitiba em muitos aspectos. De todas as cidades que eu conheço, é a mais parecida. Com uma diferença fundamental: aqui os habitantes são conhecidos, e fazem questão de reforçar, como os mais hospitaleiros da Argentina. A nossa fama não é essa, mas trabalhamos com afinco para mudar isso! Lembro que em 2006 isso me impressionou muito, dessa vez temos muito pouco tempo aqui e ontem a noite não ajudou.

Percebi que esse Hostel está mesmo com um aspecto decadente, muito diferente de quando estive aqui antes. E a energia do lugar não me agradou muito. Fomos ao Museu de Bellas Artes e, no caminho para uns prédios que foram tombados pela Unesco como patrimônio da humanidade, passamos por um fliperama e Juan me perguntou brincando se eu não queria jogar. Levei a brincadeira a sério e após mais de uns 5 anos sem jogar, o que eu fiz bastante em uma época da adolescência, resolvi “desenferrujar”. Lembro-me que na época, nesses jogos de lutas com heróis da Marvel Comics e do Street Fighter, eu era quase imbatível.

Percebi que enferrujei, mas estava brincando contra a máquina e Juan assistindo. Daí um argentino perguntou se poderia por uma ficha e entrar contra mim, aceitei o desafio achando que ia levar uma surra. Acabei despedaçando os bonequinhos dele com o Wolverine e uma ajuda essencial do Homem-Aranha: Brasil vence a Argentina em território inimigo! Não perdi totalmente o “jeito”, mas ninguém mais entrou contra mim e logo eu perdi do computador!

Fomos nos prédios que são considerados Patrimônio Cultural da Humanidade, tiramos umas fotos e entramos em um deles, que é da Universidade Nacional de Córdoba: a mais antiga da Argentina, uma das mais antigas do continente e talvez a segunda mais importante do país. Está atrás apenas da Universidade de Buenos Aires, a UBA. Nas redondezas, aquele clima universitário e bastante juventude.

Participei de um abaixo assinado para aprovar uma lei de proteção aos Bosques de Córdoba, após uma estudante me explicar sobre o assunto. Lembrei-me também que o Paulo aqui do Hostel não consegue entender como não há um movimento popular e estudantil de proteção para a Selva Amazônica no Brasil. Ele me parece muito mais preocupado com o assunto do que a grande maioria das pessoas que eu conheço, achei essa reflexão dele muito importante!

Tomamos uma cerveja perto da Universidade, ouvindo um lindo saxofone sendo tocado por um músico na rua. O Paulo aqui do Hostel tem uma teoria de que os dois países mais “loucos” do continente são Brasil e Colômbia. Para ele, ninguém gosta mais de tomar cerveja e fumar maryjuana que os brasileiros, já me disse isso algumas vezes. Não me lembro para onde ele foi em nosso país, mas volta e meia diz que adorou tudo por lá e que ficava impressionado com o que a turma bebia e fumava. E percebi que ninguém estava tomando uma cerveja aquela hora: em qualquer Universidade que conheci no Brasil, sempre há pelo menos algumas pessoas tomando uma gelada em algum bar próximo. E nós estávamos ao lado!

Daí Juan queria comprar um daqueles jogos de lógica chamado Sudoku e fomos parando em várias banquinhas de revistas. Mais uma diferença. No Brasil, pelo menos no centro das grandes cidades, quase todas que eu passei estão cheias de vídeos e revistas pornográficas por todo o lado. Lá eu não vi quase nada quando dava uma olhada na banquinha esperando o Juan fazer sua compra. Com essa história da cerveja, da maryjuana, do sexo e de tudo que as pessoas dizem a respeito do Brasil, pensei que não há como negar aquela conhecida frase de música: o Brasil é o país da sacanagem!

Hoje foi um dia preguiçoso aqui, me sinto um pouco cansado das Serras ainda. Fiquei pensando que em viagens, especialmente quando temos pouco tempo, as impressões são muito superficiais. Ficamos pouco tempo e conhecemos um pequeno espaço da cidade. E às vezes temos a tendência a generalizar. Consciente disso, eu apenas reforço aqui para meus leitores que qualquer impressão ou palavra escrita aqui é apenas uma impressão. Alguém pode conhecer os mesmos lugares e ter impressões muito diferentes! Além disso, esse diário é escrito em fluxo de consciência pura, tenho pouco tempo para escrever, nada para “arrumar” o texto, menos ainda para uma pesquisa melhor sobre os lugares que passamos. Mas bem, é o que eu posso fazer, fica aqui o aviso, especialmente porque quando publico um diário, já estou há muitos dias à frente…

Bem, Paulo acabou de me dizer que acha que a MPB é a melhor música da América Latina. Enfim, estava tomando um mate doce com uns meninos de Cosquin, cidade mais ao norte. Juan está dormindo e logo à noite embarcamos para San Salvador de Jujuy. Passaremos a noite viajando e estaremos amanha cedo lá, a viagem mais longa desde que saí do Brasil: cruzaremos boa parte da Argentina. Jujuy será apenas uma base para irmos até o Cierro de Siete Colores, uma montanha de várias cores que dizem ser sensacional e um dos maiores cartões postais da Argentina. Depois do Cierro, rumo à Bolívia.

Entretanto, antes disso tudo há uma viagem estratégica. Quando chegarmos em Jujuy, antes do Cierro vamos cruzar a cordilheira dos Andes direto a uma cidade no norte do Chile: San Pedro do Atacama. Uma pequena cidade turística no meio do Deserto do Atacama, o mais árido e alto do mundo. A estrada chega em pontos de até 4000m de altitude e termina no pé de um vulcão, dizem ser linda, inóspita e que só aventureiros europeus devem estar por lá essa hora. E vamos nós!