#29 – 01/06/09 – Córdoba – Argentina – 22h04 – Segunda-feira

Diego Canhada - 20/09/2017

Quando voltei para o parque onde estávamos acampados, Juan já tinha feito uma fogueira e estava feliz da vida. Na volta da lan house, vi muitos jovens pela rua, muitas meninas andando sozinhas pela noite e percebi como me sinto seguro na Argentina e mesmo em outros países da América do Sul. Alguns estudos mostram que não há uma correlação entre pobreza e violência, mas sim entre desigualdade social e violência. E no quesito desigualdade, somos um dos campeões mundiais. E isso ajuda a explicar a violência enorme e crescente nas cidades brasileiras.

Na Bolívia, que é um dos países mais pobres do continente, não conheço uma história de assalto à mão armada. O que acontece bastante são furtos de mochilas, mas apenas quando nos descuidamos, mesmo que seja por um minuto. São muito rápidos, quase invisíveis! Um amigo teve uma mochila furtada em La Paz, e a uma escocesa que viajou um tempo comigo em 2006 também teve sua mochila furtada em uma cidade chamada Copacabana por um breve descuido.

O meu guia de viagem diz também a mesma coisa: é muito mais provável você ser assaltado em sua própria cidade no Brasil, se for uma grande cidade, do que viajando pelos países da América da Sul. Obviamente que não se pode sair na madrugada sozinho, cantando aos quatro ventos que é turista, com dinheiro no bolso, máquina fotográfica e se enfiar em lugares desconhecidos: é uma questão de bom senso!

E nesses hósteis de mochileiros, nunca soube de alguém que teve algum pertence furtado. Mesmo sabendo que há um grande vai e vem de pessoas do mundo todo, e que todos deixam suas mochilas e seus pertences em cima das camas em quartos que às vezes têm mais de 15 pessoas no mesmo espaço. No Brasil não sinto segurança em muitos lugares e às vezes isso me impede de caminhar tranquilamente à noite por determinadas regiões.

Aqui me sinto muito mais livre, isso impressiona o mochileiro brasileiro em sua primeira viagem, especialmente porque nossos meios de comunicação distorcem a realidade de um modo inacreditável: nunca ouvi a grande mídia falar de países como Bolívia e Colômbia de modo positivo. Uma pena que muitas pessoas, quando pensam nesses países, tenham a imagem associada unicamente ao narcotráfico e violência: há um desconhecimento enorme no Brasil a respeito dos nossos países vizinhos. E eles têm belezas naturais colossais, muita história, muita cultura e um povo super hospitaleiro. De todos modos, esse é um dos motivos de eu estar escrevendo aqui.

Ficamos em volta da fogueira boa parte da noite: tomando mate, tomando chá, comendo nossos pães com queijo e salame, conversando e também em silêncio, cada um com suas próprias reflexões. Estava uma noite muito fria e nada melhor que uma fogueira. De tempos em tempos, cada um ia buscar lenha. Foi a primeira vez que nos isolamos durante essa viagem e estava muito legal lá: em um parque lindo, longe do barulho da cidade, sozinhos no meio da Argentina, acampando perto do fogo e na simplicidade total.

Eu estava refletindo sobre como escrever é eternizar momentos. Muitos passam por vários momentos especiais, mas esses acabam ficando apenas na memória. Quando escrevo sobre essa viagem, que para mim está sendo super especial, acabo eternizando esses momentos. Isso sem contar que compartilho com aqueles que não podem viajar agora, mas que espero que um dia possam. Realmente, escrever é eternizar momentos!

Fui dormir com muita serenidade na alma e pensando que não trocaria a barraca e a fogueira por nenhuma mansão naquele momento. E que achava que estava muito mais feliz ali, sem quase nada, do que muitos que estavam em suas casas com todo conforto do mundo. Dormi e acordei pensando que era de manhã, mas ainda estava muito escuro. Estava com frio e fui para fora da barraca ver se conseguia reativar a fogueira, mas pouco consegui. Fiquei o tempo que durou a brasa e voltei a dormir. Acordei quase de manhã novamente, dessa vez tremendo de frio. Estava um frio terrível!

Coloquei quase todas as roupas que tinha e mesmo assim não conseguia me aquecer. Então só achei um jeito de voltar a dormir: todas as roupas e até com a cabeça dentro do saco de dormi. Sorte que meu saco de dormir é bom, mas mesmo assim foi complicado, não sabia que esfriava tanto à noite nas Serras. De manhã acordei cedinho e não estava me sentindo muito bem. Peguei meu livro do Hesse, o MP3 e fui para o sol me aquecer. Logo estava mais quente e empolgado com a leitura: José Servo está se preparando para sair de Castália, que livro belíssimo! Separei um trecho que muito me identifiquei, especialmente quando ele fala da burocracia que existe em uma Universidade e que o impede de lecionar lá. Servo diz:

“Minhas exigências são modestas, menores do que tu é capaz provavelmente de supor. Preciso de um quarto e do pão cotidiano, antes de tudo de um trabalho e uma tarefa como professor e educador, preciso de um ou alguns pupilos com quem eu viva e sobre os quais eu possa atuar. Numa universidade é no que menos penso. Eu seria também com prazer, digo melhor, com preferência acentuada, preceptor de um menino ou aceitaria algum trabalho deste gênero. O que eu busco e necessito é uma tarefa simples, natural, uma pessoa que precise de mim. A profissão numa universidade me enquadraria outra vez desde o começo numa aparelhagem oficial de tradições, normas de rotinas mecânicas e prescrições sagradas. O que eu quero é justamente o contrário.”

Quando Juan acordou, perguntei se ele não estava disposto a fazer uma peregrinação até a montanha da cruz, que foi o ponto mais alto que encontramos aqui. E lá fomos nós, uma bela caminhada no sol e no frio, no meio de muita Natureza. Chegamos no alto e praticamos Yôga: já saí de lá com a coluna bem melhor e muito mais sereno e relaxado. Na volta, após descer o morro, vimos uma pequena queda d’água, resolvi que ia passar água no rosto e levei um belo tombo: me sujei todo, mas não me machuquei quase nada, só sinto uma pequena dor no braço. Continuamos caminhando, dessa vez bem cansados, compramos mais pães, queijo e salame, comemos no meio da rua e fomos no Museu do Che Guevara.

Nossa alimentação tem sido baseada em frutas, pães, queijo, salame (mortadela ou presunto também, sempre o mais barato), sucos e leites (iogurte ou achocolado também). E sempre água! E de vez em quando nos damos um presente: almoçamos “comida de verdade” ou um sanduíche. Mas é uma boa dieta: tem vitaminas, sais minerais, carboidratos, lipídios e proteínas. Pequenas refeições ao longo do dia quando bate a fome, nada de horários marcados, inclusive meu relógio parou quando chegamos nas Serras. Com várias refeições, o organismo está sempre funcionando, se emagrece com mais facilidade, não se sente “pesado” e o metabolismo funciona com maior efetividade e rapidez!

Che Guevara morou na casa onde hoje é o museu. Sua família veio para Alta Gracia porque o ar de lá é ótimo e ele tinha asma. Na casa havia muitos objetos que ele usava, livros que ele lia, trechos do que escrevia. Soube que ele pretendia criar um Dicionário de Filosofia e que fez algumas viagens pela Argentina e pela América Latina, não apenas a do filme Diários de Motocicleta. Foi um passeio bem interessante, especialmente porque nem sabia disso quando cheguei em Alta Gracia!

Depois o cansaço dominou, caminhamos demais e a noite foi muito fria e dura na barraca. Tiramos uma sesta, acordamos um pouco mais renovados e levantamos acampamento. Nessas viagens é sempre assim: uma hora você está morto, louco por comida, um banho e uma cama. Chega por um segundo a pensar que não vai aguentar. Logo que se consegue isso, se enche de felicidade e nem pensa em voltar para casa. Viajar assim é muito bacana e um belo aprendizado: aprendemos a valorizar as coisas mais simples da vida!

Com todas mochilas nas costas e após as despedidas do nosso bondoso e prestativo anfitrião José, caminhamos até o terminal rodoviário e embarcamos às 19h para Córdoba. Chegamos cerca de 20h15 e fomos comprar a passagem para San Salvador de Jujuy, para onde partiremos amanhã à noite: mais de 12h de viagem e estaremos no norte da Argentina.

Na compra da passagem, um fato engraçado e positivo. Havia um cartaz dizendo que havia descontos para estudantes e fui questionar. Disseram que se houvesse documentos que comprovassem, valia também para estudantes brasileiros. Lembrei-me que saí com dois documentos importantes, até porque quando saí, não sabia se ia voltar: uma cópia do meu diploma de graduação e uma declaração de que finalizei o mestrado, que já sou Mestre, mas que meu diploma está sendo impresso.

Falei para a atendente que não tinha ainda o diploma de Mestre, apenas uma declaração, e se eu ainda não tinha o diploma, eu era um estudante. Acho que ela não entendeu muito bem, mas foi super prestativa e atenciosa, concordou com o argumento, ficou com um xerox da minha declaração e deu um desconto de 15% para mim e também para o Juan que não tinha comprovante nenhum.

Pegamos um táxi e estamos no Hostel Coyote, no centro de Córdoba. Aqui está vazio, bem diferente de quando vim em 2006. Córdoba foi a cidade que mais gostei na Argentina, dessa vez teremos menos tempo e tudo no Hostel mudou: os donos abriram outro mais luxuoso e me parece que esse ficou sem tanta atenção. Mas Paulo nos recebeu, é super barato e estamos bem. Logo irei tomar um banho, o primeiro em quase três dias, sorte que o frio aqui está violento. Vou ver se lavo algumas roupas, durmo em uma boa cama e aproveitamos o dia aqui amanhã!

E entendi que preciso deixar algo claro em relação a esse texto: pelo pouco tempo que tenho, escrevo tudo no fluxo de consciência, os leitores mais atentos irão perceber que há muitas falhas e equívocos, mas é apenas um diário sem maiores pretensões. Bem, vou me juntar à conversa de Paulo e Juan, assim como tomar um banho e arrumar as minhas roupas.