#28 – 31/05/09 – Alta Gracia – Serras de Córdoba – Argentina – 17h52 – Domingo

Diego Canhada - 07/09/2017

Ontem peguei algumas dicas de como ir para um lugar legal nas Serras de Córdoba e voltei para o Hostel. Chegando lá, aquele agito da previa de sábado à noite. As meninas que trabalhavam no Hostel me pediram para eu escolher a música ambiente. Coloquei meu MP3 pra rolar e já estava radiante: tinha virado o DJ do Hostel e poderia escutar o que quisesse!

Complicado foi um cara que entrou em uma que eu deveria colocar Raça Negra para tocar. Para ele, uma música que essa banda fez no ano de 1995 é o que melhor representa a música brasileira. Embora eu não tenha nada contra o Raça Negra, está longe de ser o que eu gosto e eu nem sabia de que música o cara estava falando. Enfim, me fiz de bobo e ele parou de pedir para eu encontrar o tal sucesso de 1995 na internet.

Quando chegou a hora de partir, o pessoal tentou nos convencer a ficar com o forte argumento de que era melhor aproveitar mais os lugares em que passamos do que passar correndo em todos. Realmente deu vontade de ficar pelo menos mais um dia, mas nosso caminho é longo. Daqui para frente, é um grande trajeto até chegar aos países em que nunca estivemos: Equador e Colômbia. E é lá que eu gostaria de gastar as fichas que eu tenho.

Houveram também alguns fatos engraçados relacionados ao Juan. Um deles foi ele vindo me perguntar se eu lembrava que na noite anterior, quando ele já tinha se passado um pouco, ele havia “inventado” que tinha um restaurante em Santa Felicidade. Queria saber se eu lembrava disso porque pouco antes uma das meninas tinha lhe dito que sabia que ele “entendia tudo sobre massas porque sua família tinha um restaurante italiano em Curitiba”.

Outro fato foi ele vindo me dizer que só entendia o que lhe falavam nos primeiros 30 segundos de conversa, depois se perdia por completo, concordava com tudo e no meio da conversa conseguia resgatar o que estava sendo conversado por alguma palavra conhecida. Sensacional a destreza comunicacional do personagem.

Quando estávamos indo, resolvi me despedir de todo mundo que estava no Hostel, mesmo aqueles que eu não tinha trocado uma palavra. Havia um quarto do Hostel que estava ocupado por umas oito meninas de Buenos Aires. A maioria delas eram meio estranhas ao “mundo hostel”: alta produção e maquiagens, não haviam se enturmado com ninguém e andavam apenas entre elas. Resolvi entrar no quarto delas e quebrar o gelo no final, só para “chocar” um pouco.

Com a permissão de uma delas, entrei no quarto com a maior naturalidade, como se fosse conhecido de muito tempo e antes de mais nada, pedi desculpas pelo meu espanhol precário. Disse a todas elas que infelizmente tivemos pouco tempo para nos conhecer, mas que tinha certeza que caso ficássemos mais, iríamos nos dar super bem porque elas todas pareciam pessoas muito legais. Mas que tínhamos que partir, que nosso destino era cruzar a América do Sul e que desejava tudo de bom para elas. Falei algumas bobeiras também sobre a integração latino-americana, que Brasil e Argentina devem se aproximar cada vez mais.

Como elas não conversavam com quase ninguém, enquanto o Hostel era uma grande família, pensei que elas iriam apenas escutar e pensar entre elas algo como: “Olha o grau desse maluco!” Qual foi minha surpresa quando todas começaram a bater palmas e cantar bossa nova. Eu que acabei sem reação e o Juan achou que foi um sucesso absoluto, me comentou algumas vezes: “vai se foder, você foi até aplaudido pelas meninas todas, eu não acreditei!”

Diz ele que arrumava as malas, ouvia meu “discurso” lá dentro achando tudo muito engraçado e surreal, mas que não acreditou quando ouviu os aplausos seguidos do coral porteño cantando músicas de homenagem ao Brasil. Disse ele que a pequena colombiana pulava lá fora e cantava junto, como se dissesse orgulhosa: “viu só como meus amigos brasileiros são legais?” Mil coisas eu retiro desse diário, mas essa eu prometi a ele que ia relatar por aqui…

Aqui vale aqui uma reflexão, já que algumas pessoas me questionam como faço amizades com tanta facilidade. Juan me disse ontem que eu chego com muita energia e cativo as pessoas rapidamente. Vamos ver se consigo responder e explicar um pouco disso, pelo menos o que está no plano racional, já que acredito que há muito nesse mundo que nossa razão nunca explicará. Antes de mais nada, é preciso ficar claro que tudo é uma relação, sozinho eu não consigo nada. Sempre depende da outra parte estar aberta a construir a relação também, o que algumas vezes não acontece e é natural.

Acho que às vezes a gente vê uma pessoa que não se comunica e acha que ela faz isso por ser arrogante ou algo assim. Quando eu vejo alguém, procuro não julgar pela aparência e tento descobrir o que essa pessoa tem de positivo, e não os seus defeitos. Acabei descobrindo que muitas pessoas que parecem arrogantes, são apenas tímidas e nunca irão dar o primeiro passo: morrem de medo de serem rejeitadas. Como eu morei boa parte da minha vida em uma cidade em que as pessoas têm certa dificuldade em “se entrosar”, a necessidade me obrigou a quebrar o gelo. Também não tenho muito medo de ser rejeitado ou de passar vergonha. Também acho que humildade, simpatia e bom humor sempre são ferramentas interessantes nesse sentido.

Às vezes nós temos a tendência a chegar como um pavão, falando o que fazemos ou deixamos de fazer. Acho que esse não é o melhor modo de conseguir quebrar o gelo, apenas de criar uma imagem de um narcisista, que por ser inseguro, precisa se esconder atrás de papéis que desempenha, títulos, posses ou outras coisas mais. Quando quero conhecer alguém, eu chego brincando e estimulando a pessoa a falar de si, procuro falar sobre mim apenas quando me perguntam.

Especialmente nesse tipo de viagem, tento me despir de minha vida no Brasil e dessas identidades sociais que a gente cria no lugar em que vivemos: sou apenas um cara viajando e me divertindo pelo caminho. Além disso, da minha vida eu já sei, não preciso ficar repetindo para ter certeza do que fiz ou deixei de fazer, me interessa é aprender com os que vão cruzando meu caminho.

O mais engraçado é que poucas vezes fui mal tratado ou alguém recusou uma conversa. Muitas vezes, vou exatamente naquelas pessoas que não falam com ninguém eu vou “cutucar”, fazer uma brincadeira, chegar “agitando”, enchendo todo mundo de perguntas, respondendo as coisas mais absurdas para ver as pessoas darem risada ou “acreditarem” nas minhas “invenções” para eu dar risada. Em geral termina todo mundo rindo.

Algo que percebi é que as pessoas mais quietas em geral acabam virando seus mais leais amigos: raramente alguém vai conversar achando que eles são arrogantes e a timidez deles os impede de dar o primeiro passo. Quando alguém se dirige a eles numa boa, esse alguém provavelmente não será esquecido tão facilmente.

Em viagens assim não se tem tempo, se eu for esperar a quebra do gelo no ritmo normal, não iria conhecer metade das pessoas que gostaria. E sempre alguém tem que dar o primeiro passo, em geral sou eu. Todo mundo pensa que no Brasil só tem loucos, o máximo que pode acontecer é eles comprovarem suas teses. Entretanto, confesso que aplausos eu nunca tinha recebido por isso.

No final das contas, a pequena e louca colombiana me via escrevendo muito e não apenas colocou na cabeça, mas espalhou para todo mundo, que eu era um “literato”! E notei que Rosario estava fazendo mal pro nosso ego quando uma mulher de aproximadamente uns 50 anos e casada veio me dar seu email pedindo-me para para eu escrever umas poesias para ela: que insanidade foi essa passagem por essa cidade!

Fomos para a rodoviária comentando como fomos bem recebidos e tratados em Rosario: até as malas o pessoal nos nos ajudou a carregar. Uma passagem rápida e estratégica que rendeu muitas histórias e risadas. Embarcamos cerca de 1h30, Juan tomou seu Dramim e eu consegui dormir naturalmente, estava exausto.

Chegamos umas 8h15 em Córdoba, a segunda maior e mais importante cidade argentina e que fica bem no centro do país. Vinte minutos depois estávamos embarcando para Alta Gracia, cidade de uns 50.000 habitantes nas famosas Serras de Córdoba. A província de Córdoba tem muita influência dos jesuítas, então aqui há muitas igrejas, cruzes e muita história.

Nos dirigimos para o Parque Municipal Garcia Lorca e um homem que mora dentro do parque deixou a gente montar a barraca ao lado da sua casa por um preço irrisório. Além disso, deixa a gente usar o banheiro, carrega minhas pilhas, esquenta nossa água para o mate e vai inclusive nos ajudar com a lenha para gente fazer a fogueira. Uma figura super prestativa e gente boa! Montamos a barraca, comemos, organizamos nossas mochilas e fomos dar uma caminhada.

Aqui parece aqueles “outonos de filme”, cheio de folhas pelo chão, muitas árvores e estava bem frio. No entanto, hoje fez um dia ensolarado e lindo aqui. Estávamos procurando o caminho para as montanhas e um homem nos disse: “sigue el camino que el camino te lleva”. Desisti de procurar e fomos seguindo o caminho e ele nos levou mesmo. E a vida é assim também, achei o máximo o que aquele senhor nos disse!

Chegamos em uma famosa gruta na região, a gruta da Virgen de Lourdes. Estava cheio de gente, chegamos bem quando estava acabando a missa de domingo. Nada planejado e chegamos na missa mais importante da semana exatamente em seu ponto alto. Depois continuamos subindo e fomos até uma cruz bem no alto de uma montanha. Lá um lugar lindo, natureza pura e um visual maravilhoso: montanhas e serras para todos os lados.

A região de Córdoba é composta por várias serras, constituída por montanhas que atingem até 2000m de altitude. Quando vim para Córdoba em 2006, foi a cidade que mais gostei na Argentina, mas fiquei morrendo de vontade de conhecer as serras e na época não deu. Enfim conseguimos! E o local parece bastante pacato e simpático: cheio de igrejas, rochas, muitos parques, crianças, jovens, adultos e idosos para todos os lados.

Quando voltamos para nossa barraca, um senhor que se apresentou como se fosse da prefeitura começou a nos indagar sobre o acampamento e tudo mais. Aqui não tem mais ninguém acampado. Daí explicamos tudo a ele tranquilamente, explicamos sobre nossa viagem, ele parecia nos estudar com seu olhar, mas me solta uma pergunta que consideramos infeliz: “Y estudiar nada heim?” E eu: “Si, seguro que sí, termine mi maestría ahora!”.

Arregalou os olhos, não perguntou mais nada e mudou o tratamento conosco, até ofereceu um banheiro em uma casa. E se eu não estudasse por uma opção ou por não ter oportunidade? Seria mal tratado por isso? Acabei de conhecer um sueco em Montevideo que nunca estudou formalmente e tem uma sabedoria invejável. Que pobreza de espírito se apoiar em títulos para julgar alguém.

Bem, hoje a noite será tranquila, logo volto para o parque e vou ajudar a fazer uma fogueira. A noite será longe do  movimento da cidade, com mate e fogo para esquentar: enfim mais próximo à natureza! Amanhã pretendemos visitar um famoso museu do Che Guevara e sair para Córdoba dormir por lá, novamente Hostéis.

Agora é uma noite em cada lugar, com algumas exceções quando valer muito a pena porque não se pode planejar tanto: matamos o processo criativo e a diferença que surge quando se sai das rotas estabelecidas. Além disso, Cuzco seguramente merece um pouco mais de tempo: lá a vida ferve na noite como eu nunca vi…