#27 – 30/05/09 – Rosario – Argentina – 19h03 – Sábado

Diego Canhada - 30/08/2017

Quando voltei ontem para o Hostel Che Pampa’s, onde estamos alojados, Juan já estava cercado de meninas, todo mundo tomando cerveja e conversando alegremente. O Hostel estava muito movimentado, era a previa da noite, ou o nosso tradicional esquenta. Ele já me apresentou para suas amigas e logo estávamos todos conversando e dando muita risada.

Havia uma colombiana chamada Tati, que mora em Buenos Aires, que fazia questão de mostrar que estava muito feliz porque éramos brasileiros. Para ela, os brasileiros tem uma energia inigualável. E a menina era uma simpatia, uma alegria contagiante e eu comecei a fazer um monte de brincadeiras com todos que ali estavam.

Parece algo como uma profecia autorrealizável: as pessoas acham que os brasileiros são sempre alegres, gente boa (ou buena onda, como dizem aqui) e cheios de energia. E a gente acaba sendo mesmo, fica difícil não ser com tantas pessoas fazendo questão de nos tratar bem e de querer estar junto conosco. E comecei a me soltar, fazer brincadeiras com todo mundo e a risada correndo solta no ambiente.

Logo houve uma metamorfose. E não era o Gregor Samsa de Kafka, foi o meu companheiro de viagem e grande amigo Juan que, com alguns estímulos femininos, se transformou em Juanito, El Danzarino. Até agora só chamam ele de “Juanito”, o Juan ficou lá em Buenos Aires.

E eu inventei uma história que no Brasil ele era conhecido por suas habilidades de dança e logo a pequena colombiana, que tinha uns parafusos a menos, estava dançando com ele no corredor. Uma mistura de forró com salsa super engraçada: uma cena linda de se ver! A menina deve ter 1,50m de altura e Juanito é bem maior que eu, vê-los dançando borrachos foi sensacional!

Então Juan me disse que a Laura, uma argentina daqui de Rosario que trabalha no Hostel e foi quem nos deu o desconto para ficarmos por lá, iria nos levar para a noite. Ela já tinha sido super simpática com a gente e fomos praticamente arrastados para a noite de Rosario. Quando deu meia noite e ela terminou seu turno, levou nós dois e a pequena colombiana para um boliche (entendam como balada) em que uns amigos dela iam tocar.

Fomos correndo embaixo de chuva e nesse momento percebemos que a passagem em Rosario tinha sido estratégica: só nos trataram bem, uma galera super gente boa no Hostel, muitas meninas simpáticas com a gente e ainda estávamos indo para a balada praticamente arrastados por duas meninas. Não imagino isso acontecendo com tanta frequência em Curitiba!

Na balada estava legal e a banda tocava um rock melódico que gostei. Depois que a banda tocou, Juanito ficou com Laura na balada e voltei para o Hostel com a Tati. Peguei meu colchão, me arrumei no chão e dormi. Posso dizer que dormi bem, com exceção de alguns momentos: algumas meninas que estavam no quarto saíram e, além de fazerem um considerável barulho, me deram umas pisoteadas; outro grupo de meninos entrou no quarto para dormir e novamente barulho e pisoteadas. Fora isso, uma noite tranquila.

Pela manhã tomei o café da manha com uma galera e já comecei a dar risadas. Um argentino que estava com um grupo de amigos disse que ele e seus amigos se confundiram e acabaram em um bordéu: “Hay que pagar el amor!” dizia ele, rindo dele mesmo. Aqui há muitas baladas e a noite é forte, mas eles se confundiram.

Depois que Juanito acordou e Laura passou lá para nos buscar, nós quatro fomos dar uma volta e conhecer um pouquinho de Rosario. Hoje fez muito frio todo o dia e sempre chuviscando. Fomos no Monumento a La Bandera, subimos bem alto e vimos a cidade toda lá de cima, toda banhada pelo Rio Paraná. Como disse Juanito, se pegamos esse rio e navegamos bastante, chegamos em casa. Me senti próximo da minha terra!

Depois fomos na Casa de Las Banderas de La America, um lugar muito interessante com todas bandeiras dos países que constituem toda a América. E nós todos no maior astral e dando risadas das loucuras da pequena colombiana: acho que botaram uma pilha eterna na menina, não parava um minuto de falar, de dar risada, sempre muito empolgada. E falando das bebidas do Brasil, dizia ela: “Me muero por una caipirinha!”

Depois fomos na praça do Che Guevara, que nasceu em Rosario, o grande ídolo não só da cidade, mas de todos guerrilheiros, comunistas e revolucionários do mundo. Um homem com uma bela história e um mito para muitos. Só posso dizer que o filme sobre sua viagem na América Latina de moto, “Diários de Motocicleta”, é um filme que acho sensacional e que possui uma trilha sonora encantadora! Vale a pena, especialmente para quem quiser conhecer um pouco mais sobre a beleza desse continente e sobre a transformação que sofreu esse homem quando viajou por essa bela terra.

Saímos da praça, almoçamos umas hamburguesas, Juanito foi tentar sacar dinheiro no banco e fui ligar para meu anfitrião, hoje é aniversário dele. Depois que tirei uma siesta no Hostel, Juanito e eu fomos fazer as compras para nossa viagem dessa noite e para nosso acampamento. Saímos hoje às 1h da manhã e devemos estar bem cedo em Córdoba.

Com o processo de escrita, acabei me aproximando de várias pessoas interessantes e tenho aprendido muito com tudo isso. Percebo que cada um que me escreve foi tocado de alguma forma e isso me alegra. Cada um tem uma interpretação própria e super válida de tudo, muitos se identificam e me escrevem, outros querem desenvolver melhor algum ponto, outros também abrem seu coração para mim e compartilham um pouco de suas vidas comigo.

E eu fico feliz por conseguir, de alguma forma e com minhas limitações, conseguir ter esses “encontros” com essas pessoas. Isso me motiva a escrever cada dia com mais paixão, intensidade e responsabilidade.

Bem, minha saúde está bem melhor agora e me sinto fortalecido. Aqui em Rosario foi tudo ótimo, mas temos que partir. Ficarão boas lembranças e vontade de retornar com mais tempo. E vamos subindo, a Argentina é um enorme e maravilhoso país a ser atravessado, estar aqui de novo pela terceira vez é um prazer enorme para mim e sempre fui super bem tratado por esses lados.