#26 – 29/05/09 – Rosario – Argentina – 19h10 – Sexta-feira

Diego Canhada - 23/08/2017

Conforme tínhamos combinado, passamos na casa de Pablo ontem cerca de 14h para ele ir conosco assistir o discurso das Madres da Plaza de Maio, mas suas atribulações não permitiram que ele fosse junto. No entanto, conversamos um pouco e nos despedimos dele. Interessante a conversa que tivemos sobre Buenos Aires. Para ele, que é chileno, conhece vários lugares em nosso continente e mora lá faz um bom tempo, essa é a cidade ideal para se estudar. Disse que já fez todos os tipos de cursos, inclusive um mestrado e está cursando um doutorado, por preços irrisórios. Diz que estudos, lazer, cultura e transporte são muito baratos na cidade. O que é caro são os aluguéis e as bebidas nos bares!

O transporte lá é barato mesmo, me impressiona como em um país petroleiro como o nosso, o transporte seja tão caro. É muito mais barato viajar por outros países da América do Sul do que pelo Brasil. Achei que isso fosse mudar com um governo mais progressista e talvez tenha até piorado. E aqui na Argentina a inflação está alta, todos comentam, no entanto há “maquiagem” do governo nos índices oficiais. Nada que seja uma novidade!

Depois Juan e eu fomos para Plaza de Maio e tive uma tarde emocionante. O lugar já é movimentado naturalmente e tinha um acampamento de uns veteranos da guerra das Malvinas e outros militantes por ali reunidos. De repente chega uma van e começam a descer as Madres: belíssimas, corajosas, mulheres de fibra! A nossa ditadura militar foi cruel, mas a ditadura argentina, chilena e mesmo da República Dominicana foi insana.

Enquanto os militares argentinos eram apoiados pela CIA em uma das ditaduras mais violentas que nosso continente teve, essas corajosas mães começaram a se reunir todos os dias na frente da Casa Rosada, onde fica a sede da Presidência da República Argentina, para protestar contra o desaparecimento dos seus filhos. Há um filme estadunidense chamado “Visões”, estrelado pelo Antonio Banderas, que mostra de forma nua e crua a violência da ditadura argentina. Vale a pena assistir!

Agora imagina você saber que seu filho pode estar sendo torturado e morto por cruéis e violentos assassinos? E mesmo assim você retirar forças, se unir com outras na mesma situação e construir um dos movimentos sociais mais importantes de nosso continente. Minha admiração por essas mulheres não cabe nessas palavras! Era minha maior missão em Buenos Aires e consegui vê-las, mais do que isso, tive a honra de participar ativamente na caminhada com essas nobres senhoras. Algo para mim histórico, todas elas são muito idosas, um movimento que tem data para acabar, mas que deixará sua importante marca na história desse belo e sofrido continente!

Quando estávamos chegando à praça, perguntei para um homem onde era o discurso. E ele me responde que ali mesmo, que logo elas iam estar por ali, que toda quinta-feira aquelas “desocupadas” vinham dar umas voltas na praça. Eu não acreditava no que ouvia. Talvez ele nunca tivesse pensado que se a ditadura não tivesse sido derrubada, inclusive com uma influência considerável dessas mulheres, hoje ele poderia estar sendo torturado e morto. E uma daquelas “desocupadas” poderia ser sua mãe, lutando para rever de novo seu filho ou pelo menos saber seu paradeiro.

Enfim, como diz Eric Hobsbawn, talvez o maior historiador vivo: “A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas – é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem.”

Pelo jeito isso continua se acentuando ainda mais no século XXI. Parece que vivemos hoje em um mundo sem “história”, a ditadura mal acabou e parece que muitos nem se lembram dela, outros até acham que naquela época era tudo melhor. Impressionante, realmente impressionante! Às vezes eu gostaria de ter uma máquina do tempo, só para levar algumas pessoas para dar uma volta pela História, esperar elas retornarem e ver se continuam defendendo algumas posições. Que falta que nos faz um conhecimento um pouquinho maior da nossa própria história, creio que iríamos deixar de cometer os mesmos erros…

Mas enfim, elas chegaram com seus lenços na cabeça, outros movimentos se juntaram e começaram a dar sua volta, uma espécie de peregrinação pela praça. E eu meio perdido sem saber o que fazer, querendo participar e, quando menos esperava, um senhor me dá uma bandeira do movimento! Eu levantei minha bandeira o mais alto possível e me juntei a caminhada. Estava super feliz balançando minha bandeira, não me sentindo só, como às vezes me sinto, mas me sentindo um sujeito coletivo, um sujeito que coletivamente constrói sua própria história. Estava emocionado e honrado em estar com aquelas senhoras e no meio daquele movimento todo.

Caminhamos, ouvi o belo discurso delas contra a elite argentina que vende seu país, cantamos juntos alguns hinos e eu estava radiante. Comprei depois uma camiseta delas para ajudar o movimento e como passamos do horário que tínhamos combinado de sair, resolvemos dormir a última noite em Buenos Aires e partir cedo para Rosário, não queríamos chegar de madrugada para procurar um Hostel. No caminho compramos comida no mercado e fomos para casa.

Ontem Nicolóvski e Joana foram lá em casa, assistimos, eu pela segunda vez, o grande filme “Na Natureza Selvagem” e nos despedimos. Acordamos hoje cedo, era para ser as 6h, mas só conseguimos às 8h, organizamos nossas mochilas, arrumamos a casa e fomos para a rodoviária. Embarcamos as 11h30 e chegamos às 16h aqui em Rosário, a terceira maior cidade da Argentina.

Dormi bastante na viagem e consegui ler um pouquinho do Hermann Hesse. Já estamos com passagem comprada para Córdoba amanhã de madrugada, encontramos um Hostel bem legal, nos fizeram um bom preço porque pechinchamos bastante e aceitamos dormir em colchões no meio da galera. Parece um lugar muito bem povoado e cheio de gente de tudo que é lado. Hoje é curtir uma noite tranquila e ver o que faremos por aqui amanhã!