#25 – 28/05/09 – Buenos Aires – Capital da Argentina – 10h – Quinta-feira

Diego Canhada - 18/07/2017

Ontem a Joana preparou um macarrão com molho de camarão para nós e realmente tive certeza que estamos ficando “mal acostumados” em Buenos Aires: está na hora de partir! Assim está mais confortável do que se estivéssemos em um grande hotel, mas é bom aproveitar porque na Bolívia tudo deve mudar.

Após o almoço, preparamos um mate e fomos dar uma volta pelos Bosques de Palermo. Há uma série de parques, árvores, lagos e muita grama em uma região que cobre uma grande extensão da cidade. Um lugar muito bonito e super agradável de passear. Passamos em um lago, tirei uma foto e Nicolóvski me disse que um dia tinha caído no lago e fiquei com aquilo na cabeça, me parecia algo inacreditável.

Vimos até um planetário que tinha um meteorito que caiu na Província del Chaco em 1965 aqui na Argentina. Parecia uma rocha metálica, achei muito interessante e me coloquei a pensar sobre todos os mistérios que possui esse mundo e que nossa limitada razão não consegue desvendar. Ver um meteorito é uma sensação um pouco diferente, uma certa consciência da nossa pequenez nesse gigantesco Universo.

No caminho estávamos conversando sobre saúde e eu dizendo que já estava me sentindo melhor, mas que o erro básico é você se sentir bem e parar de tomar os antibióticos. Isso porque as bactérias mais resistentes ainda não morreram, continuam a se reproduzir e depois a infecção volta com muito mais intensidade: um exército de microrganismos super potentes! E Juan me disse brincando que com os neurônios é mais ou menos a mesma coisa quando bebemos: morrem os fracos e ficam apenas os fortes, e isso mostra que beber aumenta a inteligência.

Chegando em San Telmo, compramos umas cervejas e nos dirigimos a casa de Pablo, um personagem muito gente boa. Como a história do tombo não saía da minha cabeça, pedi para ele contar em detalhes, o que gerou gargalhadas quase histéricas de alguns.

Parece que ele saiu de um boliche (como se chamam as baladas aqui) pelas sete horas da manhã e estava sem sono. Então resolveu ir para um parque nos bosques de Palermo e deitar-se em cima de uma árvore. Há um galho super confortável em que ele deitava sempre ali, só que esse galho fica suspenso em cima do lago. Com os excessos da noite, Nicolóvski acabou dormindo e caiu da árvore diretamente dentro do lago. Deve ter sido algo totalmente inacreditável, especialmente porque o lago é super frio, às 7h da manha mais ainda e a sujeira da água é enorme.

Dizia Nicolóvski que havia um grupo de jovens fumando maryjuana no parque e que não viram que ele estava em cima do galho. Devem ter apenas ouvido o barulho dele cair, se virado para ver o que era e Nicolóvski disse que eles devem ter pensado: “parecia que era un perro (cachorro), pero era yo!”. Disse que quando saiu, teve que tirar suas roupas para deixar secando e corria em volta delas como um louco para se esquentar. E o grupo de jovens chorava de rir e não acreditavam no que tinham visto. Perguntavam para ele se foi proposital ou se caiu. Quando entenderam que caiu, ficaram até com pena. Eu imagino que até hoje aquelas pessoas devem contar essa história com muita alegria ou pensam que foi o efeito da erva.

Assistimos ao jogo e vimos o Barcelona não só ganhar, mas dar um show: 2 x 0. Nicolóvski já estava um pouco alterado e comentou comigo: “Cara, se eu fosse boliviano, eu acho que eu ia para a seleção”. Eu lembrei-me que em Curitiba realmente a sua habilidade com a bola era comentada, daí instiguei ele a falar mais sobre o assunto. Disse-me que jogava toda quinta com os argentinos e que tinha uma média de 6 gols por jogo, sendo que era meio de campo. Aqui chamam ele de Nico Kaká e sempre brincam com ele após o jogo, dizendo que a Argentina fez bem para o futebol dele, que está aprendendo muito.

Ele afirmou que os argentinos juram de pés juntos que o futebol deles é superior ao brasileiro, e que é o melhor do mundo. Disse-me também que concorda com isso e que se não fosse pela habilidade individual de alguns jogadores que sempre brilham na seleção brasileira, iríamos ter problemas nas disputas e perder a maioria dos jogos contra a Argentina. Afirmou que no Brasil quando se joga uma pelada, todo mundo quer ser atacante e ninguém respeita posição nenhuma, cada um joga em qualquer posição em geral. Aqui na Argentina todos têm posições fixas e isso é muito respeitado.

Depois saímos de Pablo, me despedi de Nicolóvski e Joana com muita gratidão pelo “suporte” que me deram e pelos momentos especiais que passei com eles. Fomos ao terraço do nosso apartamento, vimos a bela noite porteña do alto e entramos em casa. Liguei para Mariela e ela disse que era transmissão de pensamento: tinha acabado de chegar em casa e ia me ligar para passar o contato de um amigo dela que nos ajudaria em Alta Gracia, na serra de Córdoba. Agradeci a ela por tudo e me despedi, foi uma pessoa muito legal comigo aqui.

Depois Juan me e eu resolvemos que não iríamos sair para preservar nosso dinheiro e nossa saúde (ele também está gripado) e ficamos tomando um mate, ouvindo música e conversando sobre os próximos passos. Hoje deve ser a última vez que escrevo de Buenos Aires nesse diário e logo estaremos em Rosário, a terceira maior cidade da Argentina. Estávamos conversando sobre a volta para Curitiba, que é sempre algo duro após os primeiros dias em que você mata a saudades das pessoas que gosta, e ele me disse algo que achei muito interessante: “A viagem não termina em Curitiba, é apenas uma cidade em que você fica mais tempo.”. É verdade, concordo em absoluto, quem tem raízes são as árvores!

Ele foi dormir e fiquei sozinho ouvindo música e refletindo sobre como a estada em Buenos Aires foi bacana. Representada pelas pessoas de Nicolóvski, Joana, Mariela, Marcela, Pablo e Tarcísio, que deixou seu apartamento conosco, e mesmo o Juan que chegou para me acompanhar.

Desde que saí de Curitiba, só desci para o sul: Floripa, Porto Alegre, Caxias do Sul, Pelotas, Santana do Livramento, Rivera, Montevideo, Colônia do Sacramento e Buenos Aires. Deixaremos a maior cidade de nosso caminho e agora iremos começar a subir e apertar o passo: de um a três dias em cada lugar, com as exceções que acabam acontecendo quando a Vida é muito forte.

Nosso destino é Caracas, capital da Venezuela e um dos pontos mais extremos do norte da América do Sul. Quando olho o mapa de nosso continente, vejo onde estamos e para onde estamos indo, dá um frio na barriga. É um roteiro muito longo, passando por muitas cidades, muitos desafios, muitos vulcões, muitos desertos, muita estrada, muita montanha, muitos lagos, muita floresta, muita natureza, muitas pessoas, muita cultura, muito aprendizado, muitas saudades e muita Vida!