#18 – 22/05/09 – Montevideo – Capital do Uruguai – 9h15 – Sexta-Feira

Diego Canhada - 23/04/2017

Antes de ontem teve o asado aqui no Hostel e além dos dois uruguaios que trabalham aqui e prepararam tudo, havia um sueco, três estadunidenses, um israelense e eu. Todos viajando sozinhos, cada um vindo de um lugar e indo para outro. Estava uma noite muito agradável e começaram aquelas perguntas de sempre: “como é seu nome?”, ¨onde vive?¨, ¨que você faz?”, ¨de onde vem?”, “para onde vai?¨ e assim por diante. Depois fiquei mais um tempo conversando com um e outro, fiquei um tempo em uma rede que tem no terraço ouvindo música e vendo as estrelas. E como bateu o sono, recusei um convite para sair e logo apaguei.

Acordei ontem e fiquei sabendo que o desayuno era gratuito e incluído no preço da diária. Que bela surpresa! E já estava pensando que viajar pela segunda vez é muito bom porque há tantos detalhes importantes em uma aventura dessas que na primeira vez o espanto não te deixa muito tranquilo, pois é um excesso de diferença na vida que te arrepia, tudo é novidade! Na segunda vez você já está mais seletivo, se comunica muito melhor, já conheceu bastante pessoas e sabe melhor o que esperar de cada um, conhece detalhes importantes e não perde muito tempo com equívocos e reinventando a roda. Só que mesmo assim, eu me perdi na história do desayuno…

E algo que me parece importante é conhecer idiomas. Quando conseguimos ler em outra língua, um novo mundo se abre. E em uma viagem, quanto mais idiomas você falar, maiores as chances de conhecer gente. Muitos viajam sem falar absolutamente nada de espanhol e o inglês é sempre bem-vindo. Se você fala espanhol, se comunica com todas pessoas do lugar. E com o inglês você fala com todos europeus, australianos, israelenses, norte-americanos e outros, pois muitos não falam mesmo espanhol, mas inglês é a segunda língua de quase todas pessoas no mundo. Português é só com brasileiros mesmo e com portugueses, com exceção de alguns que estiveram no Brasil e gostam de treinar.

E quando as pessoas percebem que você fala um pouco, se aproximam para conversar, muitas estão quase sem comunicação e desesperados para conversar com alguém em sua própria língua. E você acaba aprendendo muito com as pessoas e treinando seu ouvido, sua pronúncia, aumentando o vocabulário e dando um choque no seu cérebro. Quando você percebe, está pensando em inglês, outras horas em espanhol, outras horas em português. E assim vai se virando e dando um nó nos seus neurônios…

Após o desayuno, subi para o terraço e fiz uma prática de Yôga. Quando desci e me movimentava pelo Hostel, percebi que o sueco – que deve ter cerca de uns 50 anos e tinha uma aparência que me chamava bastante atenção pela sua extravagância – me olhava com curiosidade após umas maluquices que eu tinha dito durante o asado. Só que enquanto eu estava toda hora conversando com um e outro, dando risadas e fazendo brincadeiras com todo mundo, ele era sempre reservado e muito quieto. Parecia de muita simplicidade, usava roupas bem batidas e o cabelo dele parecia de um espantalho. E digo isso sem nenhuma ofensa, até porque me chamam positivamente atenção as pessoas da diferença, não as da repetição. E me chamou atenção aquela figura. Então uma hora ele começou a me chamar de ¨amigo¨, começamos a nos aproximar, conversar mais e percebi que ele realmente tinha visto algum valor em minhas palavras porque pedi para uma menina que trabalha aqui tirar uma foto nossa e ele também tirou sua máquina digital de uma sacolinha de plástico e pediu uma foto dizendo algo como: ¨Take a picture of us, me and my friend: The great philosopher¨.

Então ele disse que me ouviu falando para alguém que depois eu ia para Buenos Aires e que se eu tivesse um tempo e andasse pelo centro, ele queria me dar algo para eu entregar para uma menina. Fez questão de dizer que essa menina era jovem, bonita e muito inteligente. E que seria muito bom eu encontrá-la, mas que se eu não o fizer ou não quiser conversar com ela também, que não havia problema. E me deu um gorro que ele trazia das Guianas, me deu o endereço do Hostel onde essa amiga estadunidense que ele tinha conhecido na argentina trabalhava e um bilhete que dizia:

¨Hi Cory! Something for the winter? Or next time on TV? (Parece que a menina já esteve umas duas vezes na TV Argentina dando entrevistas sobre culinária e política!) Got it in Guyana from a rastafriend (Pablo Poh) (made in China of course). This nice man from Brazil give it to you! Take care. Daniel.”

Prometi a ele que era uma questão de honra, e que eu iria entregar o gorro para ela. Parecia que ele tinha gostado muito dessa jovem e que queria que nos encontrássemos tanto para nos conhecermos, como para levar essa lembrança dele porque um dia ele a viu passando frio. Fiquei honrado com a confiança dele em mim, tinha o conhecido um dia antes. Eu ia dar uma volta pela cidade, mas começou uma chuva forte e fiquei conversando com ele. E percebi que o cara era de uma inteligência muito acima da média. Entendia muito de literatura, de filosofia, falava pelo menos uns 10 idiomas e tinha viajado pelo mundo todo. Disse para mim que, ao contrário da maioria das pessoas em seu país, que estudam em escolas técnicas, tem uma formação universitária, se empregam e passam suas vidas em uma empresa, ele preferia a liberdade. Achava que 5 semanas de férias por ano era muito pouco para ele e que não tinha profissão nenhuma: cuidava de pessoas doentes e idosos, dirigia caminhão, fazia bicos e assim vivia. E viajava muito, pelo mundo todo! E eu ali querendo aprender com ele e ele me estimulando a falar sobre o que eu pensava da vida.

Conversamos muito sobre literatura e filosofia, sobre como o Uruguai é o país mais europeu da América do Sul, almoçamos em um restaurante chinês gostoso e barato, demos uma volta por perto da Plaza Independencia, vendo as livrarias e as comidas. Aqui tem muitos livros, comidas e roupas, muito mesmo, impressiona! E uma cerveja amarga e bem gostosa, bem como bons vinhos baratos em qualquer lugar para comer. Daí comprei um livro de poesias do Mario Benedetti e quando estávamos atravessando a Plaza Independencia, aconteceu algo muito engraçado.

Estávamos revendo os ursos da paz e quando percebi, havia uma mulher na minha frente, um microfone e uma câmera me filmando para uma emissora de TV. E a mulher me perguntou quem eu achava que melhor representava o Uruguai fora do país. E eu: ¨Perdoname, pero soy brasileño y no hablo muy bien español. Pero para mi, la persona que mejor representa Uruguay es el escritor Mario Benedetti.” Pelo jeito gostaram da resposta e daí viraram para o sueco e fazem a mesma pergunta. O Daniel se atrapalhou todo, não sabia muito bem o que dizer, me olhou e queria dizer que concordava comigo. Mas na hora de dizer, fala em inglês algo como: “I think the person that best represents Uruguay is this Brazilian writer.” Ninguém entendeu nada, eu comecei a explodir dando risadas e pediram para que ele explicasse em espanhol. Então ele conseguiu dizer que ele queria era concordar com ¨el amigo brasileño, la persona que mejor representa Uruguay es el escritor Mario Benedetti.¨ Demos muita risada e ficamos conversando sobre quem poderia representar nossos países e tivemos certas dificuldades e dúvidas em achar ¨representantes¨, sejam uruguaios, brasileiros ou suecos.

Descobri também que houve uma espécie de ¨sacanagem¨ da Argentina com o Uruguai nessa questão dos ursos. Há uma briga entre os países para dizer que o Carlos Gardel é deles. Sempre pensei que era argentino, mas chegando aqui me dizem que ele é uruguaio. Daniel também me disse o mesmo, que antes tinha certeza que ele era argentino e que agora está confuso. Adivinha o que pintaram no urso que representa a Argentina e que está no meio da praça mais importante da capital do Uruguai? Carlos Gardel! E os uruguaios estão loucos da vida com isso! Bem, não me posiciono sobre o assunto, não sei nada sobre isso e deixo que meus hermanos se resolvam sozinho: não quero confusão nem com argentinos e nem com uruguaios!

Conversamos um pouco mais, nosso papo foi para a epistemologia e fiquei realmente inquieto com algumas questões que ele me colocou sobre onde está o fundamento da razão, da lógica e do pensamento. Para ele, só em Kant e nos filósofos cristãos podemos achar a resposta. Eu realmente não sabia o que dizer. E outra coisa muita engraçada que ele me falou foi que os judeus que sempre dizem onde está a verdade para o mundo. O primeiro deles foi Jesus Cristo e disse que a verdade está em Deus. O segundo deles foi Karl Marx e disse que está nas relações de trabalho e na luta de classes. O terceiro deles foi Sigmund Freud e que a verdade está no inconsciente e nas pulsões sexuais. O último deles resolveu tudo: foi Einstein e disse que tudo é relativo! O sueco era realmente muito inteligente, nunca tinha frequentado Universidade nenhuma e conhecia mais sobre filosofia, ciência e literatura do que a maioria dos diplomados que eu conheço.

Por fim, fez questão que eu comesse junto com ele umas tortas que ele tinha comprado no caminho, se despediu dizendo que nunca iria esquecer o que eu tinha dito para ele “sobre não se fechar em nossas verdades e ter humildade para estar aberto às forças da vida e a todo conhecimento, venha ele de onde vier”. Me disse que sentia não ter mais tempo de conversar, que achava que eu tinha uma filosofia de vida muito interessante e bonita, que eu deveria continuar estudando e passando isso para outras pessoas. E se e mandou para Porto Alegre com a promessa de conhecer a Cidade Baixa, bairro que eu curto muito na cidade e indiquei para ele. Foi uma conversa muito boa: fiquei admirado com aquela figura singular!

Mas eu já tinha tomado umas cervejas e queria mais. Daí me mandei para a Plaza Independencia e quando percebi, já estava com um colombiano que vendia artesanatos e comprei um pulseira bem legal de arte colombiana para ajudá-lo. Ele estava alegre, viajando há um bom tempo desde a Colômbia e indo para o Brasil. Me dizia que achava Colômbia muito parecido com o Brasil e que para ele, eram os países mais loucos e de pessoas mais ¨buena onda¨. Me deu as dicas para atravessar da Colômbia para Venezuela, que para ele deveria ser por Macao, e me assegurou que tenho que ir mesmo até a Colômbia porque vou adorar. Tomando cerveja, descubro que ele também era um admirador da obra do Castañeda e possui 10 livros dele! E começamos a conversar, tomamos mais uma cerveja e ele me falou algo que pedi que escrevesse para compartilhar com meus leitores. Ele me disse que os Quatro Ensinamentos Toltecas são:

– Sé impecable con tus palabras (Seja impecável com suas palavras)

– No te tomes nada personal (Não tome nada como pessoal)

– No hagas suposiciones (Não faça suposições)

Haz siempre lo mejor que puedes (Faz sempre o melhor que podes)

Depois da cerveja com o colombiano e uma boa conversa, volto para o Hostel e encontro um dos estadunidenses do asado procurando um lugar para comer e lá fui eu com ele para ¨Il Mondo de la Pizza”. Esse falava um espanhol perfeito, tinha estudado muitos anos e morado quase um ano em Barcelona, que para ele era uma das melhores cidades do mundo. Apaixonado pela cidade, pelo time com o mesmo nome e pelo Ronaldinho Gaúcho. Perguntei o que ele fazia em Montevideo e me disse que estava dando um ¨recesso da noite de Buenos Aires¨ porque lá a noite pegava fogo e no Uruguai tudo era mais calmo. Eu achei o máximo, é para essa fogueira que eu vou em breve!

E daí quando nós estávamos pedindo a pizza, eu muito alegre e fazendo umas brincadeiras com o garçom e ele me diz, acho que pensando que tudo aquilo era muito exótico: ¨tienes mucha energia amigo!”. E dava risada! E eu achava o máximo e anotava tudo no meu papelzinho. Estava passando um jogo de futebol entre Defensor e Boca Juniors e todo mundo assistindo na pizzaria e depois no Hostel. O Defensor é de Montevideo, do bairro Punta Carreta. Não é tão tradicional como Peñarol e o Nacional, também da cidade, mas ontem eliminou o tradicional time do Maradona da Libertadores. Um a zero para o Defensor em cima do Boca Juniors, considerado por muitos como o melhor time da América do Sul.

Voltamos para o Hostel, consagramos no terraço e ele me pediu que falasse um pouco mais sobre o que eu tinha dito no asado. Comecei a falar sobre isso e sobre o que eu pensava em relação à Vida, enfim, as poucas certezas que eu me agarro para não enlouquecer perante meus oceanos de incerteza. E quando comecei a falar, ele me olha e me pergunta algo como: ¨no que você se agarra para disseminar essas ideias? no que você acredita para ser tão otimista e idealista?¨. Começou a me falar que não sabia mais que sentido poderia dar para a vida, me disse que soube há dois dias que tinha perdido uma de suas melhores amigas. Me pediu desculpas por estar falando sobre aquilo naquela hora, mas que não tinha mais com quem conversar e que achou que eu poderia dizer algo para ajudá-lo, estava com os olhos cheios de lágrimas.

E lá fui eu falar sobre perdas, sobre dor, sobre como tudo na vida é um desafio, sobre essas loucuras que eu acredito que aqueles que acompanham esse espaço devem conhecer. O pior é que sou só incertezas, mas de algum modo percebo que algumas das minhas loucuras acabam servindo para outras pessoas. E ontem estava um rapaz arrasado com a perda da sua amiga e querendo uma palavra de conforto. Enfim, conversamos bastante e tentei ajudá-lo no que podia. Depois vi ele feliz porque conseguiu ver o seu jogo de basquete na TV a cabo aqui do Hostel: torcedor do Denver Nuggets, que estava jogando com o Los Angeles Lakers. Quando achou o canal, me olhava feliz e gritava: “YES!”

Vi que minha missão do dia já tinha sido cumprida e fui dormir cheio de dúvidas a respeito do blog, se deveria continuar ou apagá-lo. Estava refletindo se estava me expondo demais, se o que eu escrevia tinha valor, se não estava sendo arrogante, presunçoso e narcisista. Enfim, estava cheio de dúvidas e pronto a quase apagar tudo.

Durante a noite, tive um sonho perturbador, acordei cheio de saudades das pessoas próximas e meio “baqueado” pela noite de ontem. Quando fui ver meus e-mails, tive belas surpresas. Primeiro que o blog tem quase uma centena de acessos diários. Uma responsabilidade e tanto, mais do que uma vitória! Segundo porque entre outros e-mails, havia um comentário de meu amigo Juan avisando que já está com passagem comprada para Buenos Aires. Também descobri um que site indexou meu blog por causa de um conto que escrevi, conto que encerrou a trilogia dessa personagem que tanto me ensinou, talvez personagem que eu considere ¨minha¨ maior criação e que tive que destruir porque não conseguia mais lidar com ele…Com tudo isso que vi hoje de manhã e por algumas reflexões que vi pelo que aconteceu no dia de ontem, resolvi que por enquanto continuo escrevendo!