#16 – 19/05/09 – Montevideo – Capital do Uruguai – 21h50 – Terça-Feira

Diego Canhada - 15/03/2017

Às 0h30 embarquei em Rivera e 7h desembarquei em Montevideo, capital do Uruguai e cidade que congrega cerca de metade da população do país. A viagem não foi fácil: a garganta, tosse e o cansaço atacaram e tive que apelar para umas pastilhas. Creio que em breve estarei 100%, poderei deixá-las de lado e meu sistema imunológico estará cada vez mais forte.

Peguei um táxi ainda na escuridão e, conversando com o motorista, esse me dizia que eu era louco de atravessar o continente por terra e sozinho. Me me contou também que conhecia o Brasil, foi falando de algumas cidades e perguntei sobre Floripa. Ele disse que de lá não gostava nem de lembrar e eu não entendi o porquê. Daí o cara me disse que lá ele tinha acabado de descer em um ônibus de excursão em Canasvieiras, foi dar uma volta, levou uma ¨geral¨ da polícia e o prenderam porque tinha um baseado no bolso. Eu comecei a rir e ele me dizia que não era motivo para riso porque foi muito sério. Comecei a me divertir desde que cheguei…

Cheguei no “Hostel El Viajero”, no bairro “Ciudad Vieja”, e me acomodei em um quarto cheio de beliches e que já tinha um pessoal dormindo. Foi o sono que eu precisava para renovar as energias, já estava ansioso por uma cama quente: cansado dos ônibus e rodoviárias, e com o corpo pedindo descanso e me sentindo meio mal. E sei que isso é só o começo. Desmaiei e após algumas boas horas de sono, acordei outra pessoa e sem nenhuma dor!

Quando me sento na minha cama, esfregando meus olhos para me levantar, ouço uma voz dizendo: “Nice shirt!¨ Era a minha: uma camiseta que tenho com o mapa da América Latina. Essa camiseta costuma fazer “sucesso” nos países de nuestros latinos hermanos, só que esse rapaz era inglês! Descobri que além desse rapaz, havia uma inglesa, um israelita, um colombiano e um argentino. E começaram a me encher de perguntas, eu tentava responder os ingleses em inglês, já que não falavam nada de espanhol e muito menos português; respondia o colombiano em espanhol e o argentino em português, já que esse tinha acabado de voltar do Brasil e queria continuar treinando. Ele me fala de meia em meia hora que já está com saudades da nossa linda terra!

O Brasil é muito admirado em nosso continente e só de ser brasileiro já se tem meio caminho andado na América Latina. Se agir com simpatia, humildade, tentar falar com cada um em sua própria língua (quando é possível obviamente, só me viro em inglês e espanhol) e distribuir bom humor, aparece uma galera querendo estar contigo. Em pouco tempo eu já estava enturmado e dando risadas com o pessoal todo!

Resolvi tudo com a gerência do Hostel, me deram um desconto legal e resolvi que ficarei até sábado aqui. Arrumei minhas mochilas, fui dar uma volta e conhecer esse bairro, o mais tradicional e antigo, exatamente onde a cidade começou. Estava meio perdido, pedi informações a uma estudante da Alemanha, que morava lá há pouco tempo, me deu umas dicas e fui no Mercado del Puerto. Vi as famosas Parrilladas: as carnes e os churrascos deles estão entre os melhores do mundo. Fiquei até com água na boca, mas estou no começo de viagem e não poderia me dar esse luxo ainda. Comprei umas frutas em uma quitanda e continuei andando alegremente.

Achei uma toca que adorei, bem barata, comprei e já pensei em me desfazer da minha. Toda vez que compro uma roupa eu me desfaço de outra. E dessa vez eu trouxe muitas poucas roupas e já sabendo que encontrarei muitos apetrechos legais, trouxe peças para me desfazer. E pensei que com a nova toca do Uruguai, a minha antiga iria ganhar um novo dono. Só queria saber quem seria digno de recebê-la. Vi um lugar que me pareceu legal por fora, com uma tal de quesadilla mexicana com um preço bom e entrei para conhecer. Lugar bem legal, cheio de livros antigos: comida e arte! Comi a tal da quesadilla, fiquei informado sobre sessões de cinema alternativo na cidade e continuei a caminhada.

Senti aquela vontade de comer algo de sal, percebi que só as frutas e aquela espécie de pastel assado não iriam me sustentar a tarde toda. Foi quando estava passando por uma feira e vi uma barraca vendendo frios. Vi um salame que parecia bom e resolvi comprar um pedaço, era só o que eu precisava para arrematar. Quando pedi, o atendente começou a me fazer perguntas sobre futebol, foi super simpático, cortou um pedaço maior do que eu queria e não quis me cobrar nada. Eu insisti que poderia pagar, mas não teve jeito. Daí eu já tinha descoberto quem iria ganhar minha toca e quando dei para ele, abriu um sorriso tão feliz e de incredulidade que me fez ganhar o passeio.

Acho que as pessoas aqui – que se vestem de um modo muito elegante – me veem com essas roupas bolivianas, com a barba sem fazer, um calçado que ninguém sabe se é sandália ou tênis, com essas calças coloridas e pensam que estou passando fome. E quando começo a conversar e percebem que é só meu jeito mesmo, que sou um mochileiro brasileiro vivendo de forma simples para viajar muito, se surpreendem e querem me dar uma força para eu chegar onde quero.

Eu andei a tarde toda, conversando com muita gente, vendo muitas coisas, enchendo as pessoas de perguntas e fiquei espantado com a cordialidade desse povo. Já tinha sentido isso em Rivera, mas aqui eu tive certeza. Que educação tem o povo uruguaio! Fazem questão de te dar as informações corretas, de serem cordiais, de que você sinta-se bem no país deles. E conseguiram: me senti muito bem nesse primeiro dia em Montevideo e achei a cidade linda!

Acho que, respeitando suas muitas diferenças, Porto Alegre, Buenos Aires e Montevideo têm muito em comum: três grandes cidades que fazem questão de manter suas tradições, preservar sua história, manterem sua identidade e seus prédios antigos. Enfim, não se rendem facilmente às ¨promessas da modernidade¨ e nem por isso são cidades atrasadas. Me diziam que era uma cidade de idosos, mas vi muitos jovens também, achei muito interessante a vida aqui, gostei das belas e grandes árvores nas ruas e vendo o mar dos dois lados de algumas dessas ruas. E hoje foi um dia azul belíssimo aqui.

Quando já estava pensando em ir pro Hostel, encontro meus colegas de hostel e fui acompanhá-los. Eles iam comer a parrillada, mas eu já estava tranquilo e bem alimentado. Nós lá e um senhor para do nosso lado, começa a dedilhar um violão e tocar uma linda melodia. Pena que só foram duas músicas e meus colegas não pareceram se importar muito com ele, mas as suas canções encheram minha alma. Muita habilidade com as cordas e uma voz poderosa: ganhou minha admiração na hora e deixei umas moedas com ele. Uma das músicas, que fiz questão de saber o nome, chamava-se ¨La Navidad de Luis¨, belíssima! Eu não sei tocar nada, mas admiro tanto quem sabe, especialmente instrumento de cordas que é o que me toca.

Depois fui sozinho para a Plaza Independência, a mais famosa da cidade e com um monumento para José Artigas, o herói uruguaio. Havia lá uma exposição da ONU em que todos países estavam representados por uma escultura de urso. Cada país tinha um urso diferente e essa exposição era pela paz no mundo, todos ursos de mãos dadas e visava arrecadar um dinheiro para projetos nesse sentido. E então me mandei para curtir o cinema alternativo. Um filme sueco de 2007 chamado ¨La Comedia de la vida¨. Se a sinopse era chamativa, o filme decepcionou: sai do nada e vai para lugar nenhum.

Depois disso resolvi ir em uma pizzaria que um contato indicado pelos amigos do meu anfitrião em Floripa me deu e cheguei lá. Era realmente barata e boa: ¨Il Mondo de La Pizza¨. Quando estou lá, começo a ouvir um ¨portunhol¨ e dois rapazes tendo certa dificuldade para se comunicar com o garçom e resolvi ajudá-los. Eram de Recife, capital de Pernambuco. Estavam ali a trabalho e já fui para mesa deles. Eu achava o máximo porque um deles estava indignado que não conseguia comer arroz e feijão. Nas palavras dele: ¨Poxa, você pede a carne e vem só dois tipos de acompanhamento: ou arroz ou papas (batatas), assim não dá!¨ E depois eles não acreditavam que a pizza era quadrada ao invés de redonda e um deles queria vinho de mesa suave e só tinha seco. E nós três dando risada e conversando sobre as diferenças entre os países, sobre a educação dos uruguaios, sobre a violência no Brasil, sobre o carnaval em Olinda, sobre as mulheres. Quando nos despedimos e eu estava indo, quiseram tirar fotos comigo e disseram-me que vão me mandar.

Bem, o inglês, o israelita, a inglesa e o colombiano se foram. O Hostel está bem tranquilo e terei um quarto quase só para mim. Essas hospedagens são sempre assim: chegando gente de tudo que é lado e indo gente para tudo que é lado. Aproveitei o sossego, escrevi um texto enorme compartilhando alguns eventos de um passado recente, pensando que talvez fossem úteis a alguém.

Por fim, deixo abaixo um poema de Mario Benedetti, considerado o maior escritor uruguaio, chamado ¨Tactica y Estrategia¨. Por sinal há um livro dele maravilhoso que se chama ¨A Trégua”, sua obra prima. Esse poema está colado aqui no Hostel e achei tão bacana que resolvi compartilhar. Hoje em dia o assunto do momento é se estudar estratégia, mas pelo jeito o conceito desse uruguaio é bem diferente dos que estão por aí nos livros de gestão e similares…

Táctica y Estrategia (Mario Benedetti)

Mi táctica es
mirarte
aprender como sos
quererte como sos

mi táctica es
hablarte
y escucharte
construir con palabras
un puente indestructible

mi táctica es
quedarme en tu recuerdo
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
pero quedarme en vos

mi táctica es
ser franco
y saber que sos franca
y que no nos vendamos
simulacros
para que entre los dos
no haya telón
ni abismos

mi estrategia es
en cambio
más profunda y más
simple
mi estrategia es
que un día cualquiera
mo sé cómo ni sé
con qué pretexto
por fin me necesites.