#15 – 18/05/09 – Rivera – Uruguai – 17h40 – Segunda-feira

Diego Canhada - 10/03/2017

Ontem após escrever, fiz um gargarejo com limão e mel, arrumei as malas, me deitei com meu MP3 e dá-lhe músicas. Ontem um amigo me mandou uma música que disse que achava ter tudo a ver comigo e com o que escrevo: ¨Tocando em Frente¨, do Almir Sater e Renato Teixeira. Fiquei honrado com a comparação e agreguei ao meu repertório, adoro essa música.

Lembro-me que um dos melhores professores que tive, uma das pessoas que mais admiro e talvez a pessoa com maior formação intelectual que eu conheci, abre um de seus livros com a letra dessa música. Entre os diversos e variados ensinamentos que aprendi com ele, há um que nunca que vou me esquecer: ¨o maior posto que se pode almejar na carreira acadêmica é ser um bom professor.” Foi um modelo de postura acadêmica para mim e comecei a dar um outro sentido a todos livros que abro.

Bem, ainda estou lutando bravamente contra uma tosse e uma irritação na garganta, acho que estou passando por um profundo processo de limpeza. Saí de Pelotas antes do sol nascer, embarquei às 7h30 e 12h45 desci em Santana do Livramento, fronteira com Rivera no Uruguai. Lindo nome de cidade: Santana do Livramento! Bom nome para uma filha caso eu tenha uma…A viagem foi com discussões magistrais entre José Servo e Padre Jacobus, um dos pontos altos, senão o cume, do livro. E um dos fones do MP3 parou de funcionar e desisti de escutar no caminho: é muito desequilíbrio ouvir em um fone só, parece que a alma entorta…

Lembrei-me de uma frase que tinha escrito em uma camiseta minha e que adoro: ¨Não me siga, estou perdido.¨ Esse é o espírito! Ao mesmo tempo, lembro-me que o Saramago chama atenção e de forma brilhante, no seu livro ¨Ensaio sobre a Cegueira¨, sobre a responsabilidade que possuem aqueles que ainda enxergam em um mundo de cegos. Os ¨eus¨ continuam em guerra, sempre, eternamente…

Eu indo para um albergue em Montevideo e me salta aos olhos durante a viagem Pelotas-Santana do Livramento a mensagem que José Servo recebe do oráculo:

O Peregrino chega ao albergue

Traz consigo seus haveres

Ele consegue adquirir a persistência

de um jovem servidor

Desembarquei em Santana do Livramento e fui pedir informações para um taxista sobre fronteira, fone de ouvido e tudo mais. Estava com vontade de caminhar, alegre por estar saindo do Brasil (minha amada terra, sair para voltar) mas o Sr. Juan foi tão atencioso comigo, me ofereceu um belo desconto que acabei indo com ele, que me deixou na rodoviária de Rivera. Dei uma olhada nos horários dos ônibus, fui trocar uns dólares, passei em uma lan house e quando voltei, descobri que tinha me confundido com os horários.

Resultado: está chovendo, estou ilhado e dizem que não há nada para se fazer aqui. E para não chegar de madrugada em Montevideo, até porque nunca pisei naquela terra, vou ter que esperar até meia-noite para embarcar. Mas tenho três trunfos que não me deixam desanimar: o MP3 com fones novos e 1Gb de músicas escolhidas a dedo, o livro do Hesse e firmeza de propósito.

Nesses momentos de solidão bate uma saudade e uma tristeza. Mas como me ensinou Castañeda, não há totalidade mesmo sem a tal tristeza e a tal saudade…Mas enfim, a viagem será proveitosa de qualquer modo, aprendi a estar sozinho: somos nosso único porto seguro sempre. Para compensar, deixo-os com a letra dessa música magnífica: ¨Tocando em Frente¨. No espírito do momento!

Tocando em Frente (Almir Sater e Renato Teixeira)

Ando devagar porque já tive pressa
Levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei
Eu nada sei

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando os dias pela longa estrada eu vou
Estrada eu sou

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Todo mundo ama um dia, todo mundo chora,
Um dia a gente chega, no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
E ser feliz

Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Cada um de nós compõe a sua história,
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
E ser feliz