#14 – 17/05/09 – Pelotas – RS – 22h – Domingo

Diego Canhada - 31/01/2017

Após escrever as histórias anteriores, dormi. Acordei, fui tomar um banho, caminhar sob o sol, tirar fotos e cumprir uma missão para um amigo do meu anfitrião. Relendo os diários, que é um intenso exercício de auto observação, percebo claramente o que diz o Hesse: uma multidao de ¨eus¨ habita esse corpo. A criança, o jovem, o velho, o sonhador, o machucado, o crítico, o pacifista, o presunçoso, o humorista, o libertário, o egoísta, o guerreiro, o narcisista, o determinado, o assustado, o eterno, o passageiro, o espiritual, o carnal, o esperançoso, o revolucionário, o resignado, enfim, uma multiplicidade de Potências. Longe de sermos um ¨eu¨ estático, um estado fixo, somos processos mentais, devires, um constante ¨vir a ser¨, um ¨tornar-se¨.

Embora eu nem tenha saído do Brasil, o mergulho na alma já começou de forma intensa e estamos indo fundo. E dessa vez com plateia! Espero que não decepcione meus nobres leitores. Prometo não mentir e se tiver que fazê-lo para me preservar ou preservar terceiros, apenas omito ou paro de escrever. Da última vez estava enrolado com umas meninas muito legais aqui, conheci uma escocesa em Cuzco, começamos a viajar juntos pela Bolívia e parei de escrever, não queria machucar ninguém e nem ficar mentindo. E depois de uma semana viajando com a menina, que andava pelo continente fazendo uns trabalhos em comunidades carentes no Peru e vendendo uns sapatos que ela mesmo fazia artesanalmente, tivemos um rolo na entrada da Bolívia. Daí percebi que ela mostrou o passaporte dela, tudo se resolveu rapidamente e eu não entendi nada. Daí descobri: era filha de um senhor que ocupa cadeira na Câmara dos Lordes na Inglaterra e sobrinha do primeiro-ministro da Escócia. Nunca me senti tão seguro!

Mas enfim, voltando ao papo da decepção, o que eu espero é não decepcionar meu Espírito, esse sim que me importa. Os desconhecidos eu não conheço. E os familiares e amigos acabam sendo sempre muito benevolentes com minha pessoa, muito carinhosos sempre. Meu Espírito sim, ele é minha mais importante medida, o tribunal que cada um carrega dentro de si, a busca pela impecabilidade aos próprios olhos.

E dessa infinidade de ¨eus¨ que se dão cotoveladas para decidir quem comanda o processo, farei o possível para que seja os que estão em alta frequência. Aqueles que possam canalizar Luz para cá, já que o Planeta precisa desesperadamente, qualquer velinha como a minha é bem vinda. Mas se a gente juntar todas velas, podemos criar um grande e iluminado sol: vamos todos acender e ascender!

Bem, recebi um e-mail spam infame hoje. Dava risada para não chorar. Uma pessoa que se colocava como ¨um grande e consagrado escritor¨, do qual eu nunca ouvi falar, prometia ¨despertar o potencial criativo¨ de todos que pagassem uns cento e pouco reais para que ele transformasse qualquer um em escritor. E se não me engano, o curso era de um dia! Que todos são escritores em potencial eu concordo em absoluto, mas que um ¨iluminado¨ iria ensinar o ¨caminho das pedras¨ em um dia eu acho uma piada de mau gosto. Para mim o resultado é simples: o ¨iluminado¨ e seus parceiros enchem o bolso e o ¨candidato a escritor¨, quando percebe que com ele não funcionou, começa a acreditar que não tem o “dom”, se frustra e desiste para sempre. E não volta mais a escrever achando que não tem capacidade, o que é uma crueldade.

Hoje em dia se você estiver disposto a pagar, há promessas de toda ordem: transcenda em um dia, enriqueça em minutos, obtenha a felicidade plena agora. A ¨sociedade da gratificação imediata¨ é o máximo: pague e obtenha o que almeja sem nenhum esforço, sempre haverá líderes, mestres, gurus, sábios e iluminados para não apenas mostrar o caminho, mas para levar no colo. É, acho que o Michel Foucault, grande filósofo francês, me ensinou a desconfiar de qualquer ¨autoridade¨, mostrou-me que saber e poder estão ligados até a raiz.

Mas voltando ao papo do aprender a escrever, sabendo que minhas limitações nesse sentido são inúmeras e que seria pretensão da minha parte querer ensinar alguém, vou dizer um pouco do que penso a respeito. Apenas como uma opinião de alguém que gosta de brincar com a linguagem para liberar Vida. A primeira questão, que me parece óbvia, é gostar de ler e de preferência bons livros. Acho que procurar um sebo e investir os cento e pouco reais em bons livros daria melhor resultado que o bate-papo com o ¨iluminado¨. As pessoas que conheci que melhor escreviam simplesmente gostavam de ler bastante: um esforço diário, constante, sem pressa e com paixão. Depois escrever acaba sendo natural.

Outra questão que me parece importante e que vi em um filme belíssimo chamado ¨Encontrando Forrester¨ e que me abriu os olhos é: escreva com emoção e só depois deixe a razão entrar em cena! Por último e que eu só poderia dizer tendo o genial filósofo Deleuze como fundamento é que os grandes escritores são malabaristas que estão no limite! Brincam com a diferença e com a repetição, pulam da literatura para a ciência, se agarram na filosofia e se impulsionam com suas paixões. E assim vão costurando a linguagem e construindo obras assombrosas! Forçam a linguagem ao seu limite máximo para marcar os próprios limites que separam o silêncio do som, a filosofia da ciência, a arte da política. Ou se colocam exatamente nesses limites, em magistrais conversações entre essas diversas formas de conhecimento. Autores de difícil classificação, se eternizam unindo sentimento e razão, o objetivo e o subjetivo, forma e conteúdo, conceitos e perceptos, diferença e repetição. Acham um espaço de equilíbrio entre o caos e ordem, descobrem uma unidade nesses contrários. Em suas obras, fazem surgir uma estética sublime que leva nossos pensamentos aos Céus e nos causam verdadeiras revoluções cognitivas e perceptivas.

Quando o meu Narciso tenta aparecer e começo a achar que estou escrevendo bem, leio mestres como Hesse, Borges, Kafka, Dostoiévski, Llosa, Saramago, Gutiérrez, Eco, Castañeda e outros monstros. Daí eu levo um ¨soco na cara¨, me coloco no meu lugar e tenho consciência plena do abismo que me separa desses Grandes Professores. Gênios que, em muitos casos, morreram desconhecidos e desacreditados. Tinham dentro de si uma Vida explosiva que os fazia enxergar o que é invisível para a maioria. Minha gratidão por alguns deles não tem palavras: doaram suas vidas pela arte, se propuseram a pensar o impensável e abrir nossos olhos. Lapidaram nossas almas com tamanha beleza! O que seria de nós sem eles? Me assusta só de pensar, vamos mudar de assunto e voltar para minha vidinha.

Depois de tirar algumas fotos de alguns Prédios Históricos, voltei para almoçar. Pelotas é a terceira maior cidade do Rio Grande do Sul, atrás de Porto Alegre e Caxias do Sul, e já foi um importante centro econômico e cultural do sul do país na época da charqueada. Depois entrou em decadência e hoje luta para diversificar sua economia. Problema típico de grande parte das cidades de nosso sofrido continente: exportam commodities e quando o mercado internacional  tem uma alta demanda do produto, tudo vai bem, especialmente para a ¨elite local¨. Quando vem a crise ou surge outro produto com ¨vantagem competitiva¨, para usar o termo do estrategista Michael Porter, vem a desgraça.

A cidade de Potosi, na Bolívia, é o maior exemplo disso. O ciclo da prata a tornou a maior metrópole do mundo. Acabou a prata e hoje é uma das cidades mais pobres do continente, só restaram as marcas de uma época que já se foi. No centro de Pelotas se percebe claramente as marcas de tempos áureos. E hoje a Prefeitura está restaurando muitos desses Prédios Históricos, são muito bonitos! E agora, depois do pau-brasil, da cana de açúcar, do café, tem muita gente querendo transformar o Brasil em uma plantation de soja. Com as velhas promessas de desenvolvimento: só que isso é um mito, não há um país no mundo que seguiu esse caminho e se libertou da pobreza. Mas essa é a nova piada do momento!

E a Amiga da Família aqui me contando sobre os novos conteiners para separação de lixo que estão instalando nas ruas da cidade. E eu: “Mas o pessoal está separando em suas casas?¨ E ela: ¨Olha, acho que não, mas a polícia descobriu que o alguns jovens estão usando o local para fumar crack lá no meio do lixo para se esconder e aproveitar melhor a fumaça.¨ Como escreveu um amigo esses dias em um e-mail muito esclarecedor sobre a diferença de tratamento que receberam a enchentes em Santa Catarina das que estão ocorrendo no Nordeste, o ¨ser humano é muito curioso mesmo.” Ver um homem sofrer é doloroso, mas ver um jovem perder sua vida que poderia aproveitar é simplesmente terrível.

Imagina quantos corpos, cérebros e corações estamos perdendo nesse momento por culpa desse sistema de morte. E quanto mais avança o preconceito e o desconhecimento sobre a genial obra do filósofo, economista e militante Karl Marx, mais suas teses vão sendo comprovadas. Precisamos cada vez mais revisitá-lo sem os dogmas que alguns círculos da ¨extrema-esquerda¨ possuem: que força e beleza possui sua dialética desmistificadora! A filosofia do movimento, da contradição, da transformação. Heráclito, Hegel e Marx: um formidável trio, cada um a seu modo!

Passei a tarde na web, descobri que minhas botinas estão na rodoviária graças ao Gaúcho, comecei a me despedir e pratiquei um delicioso e renovador Yôga. Logo arrumo as malas e amanhã cedinho me mando. Tentarei escrever menos daqui para frente, demora demais passar a limpo para o computador e ninguém deve mais aguentar tanta loucura. Sinto um forte amparo e aquela sensação de felicidade, liberdade, tristeza e saudade. Nomear sentimentos é sempre muito difícil para mim, creio que para todos. Tantas pessoas têm me dito que estão torcendo, rezando e mandando boas vibrações que essa energia me contagia e enche meu coração! Logo vou começar a flutuar e nem precisarei caminhar, talvez nem precisasse ter incomodado o Gaúcho. Rumo a um novo carimbo no passaporte: meu destino agora é o Uruguai, a antiga ¨suíça das Américas¨!